Título: Brasil perde terreno para rival asiático
Autor: Raquel Landim e Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 13/03/2006, Brasil, p. A3

O real forte e a concorrência asiática estão reduzindo a participação de calçados e confecções brasileiras nas importações argentinas. No primeiro bimestre desse ano, os calçados brasileiros responderam por 47% das importações argentinas. Foram 1,5 milhão de pares. Os sapatos vindos de outras origens chegaram a 1,6 milhão de pares e superaram a participação brasileira, chegando a 53% das importações. Em igual período em 2005, a fatia do Brasil nas importações argentinas estava em 64%, enquanto os outros países ficavam com 36%, segundo a Câmara de Importadores de Calçados. Os argentinos compraram 1,2 milhão de pares do Brasil e 647 mil pares de outras origens em janeiro e fevereiro do ano passado. Os asiáticos, com destaque para a China, respondem pela maior parte das importações de outras origens que chegam à Argentina. A fatia da Ásia nas compras de sapatos da Argentina está em 43%. O Uruguai responde por 10% das importações. Os empresários brasileiros culpam o câmbio valorizado e as licenças não-automáticas implementadas pelo governo argentino pela perda de participação. O presidente da Câmara de Importadores de Calçados, Juan Dumas, também atribui a perda de participação ao câmbio, mas pondera que a participação do Brasil vai crescer ao longo do ano, pois o país vende mais calçados de verão, que desembarcam no segundo semestre. Em 2005, o Brasil respondeu por 70% das importações argentinos de calçados. Foram 14,1 milhões de pares, ou US$ 116 milhões, a um preço médio de 8,2 por par. As compras totais da Argentina ficaram em 20,1 milhões de pares, ou US$ 164,7 milhões. As importações argentinas de roupas vindas da China também deram um salto em janeiro. De acordo com dados da Fundação Pro Tejer, que reúne os fabricantes argentinos de produtos têxteis, as importações dos produtos vindos do gigante asiático chegaram a US$ 1,7 milhão em janeiro, alta de 421% em relação a janeiro de 2005. Essa cifra encostou nas importações vindas do Brasil, que ficaram em US$ 1,9 milhão, com alta de 82%. Em 2005, as importações argentinas de roupas cresceram 135,6%, para US$ 13,8 milhões. Já as compras desses produtos vindas do Brasil aumentaram apenas 2,9%, para US$ 33,2 milhões. Os setores privados do Brasil e da Argentina fecharam um acordo de limitação das vendas brasileiras de alguns produtos do setor têxtil para o país vizinho. O presidente da Fundação Pro Tejer, Aldo Karagozian, comemora a chegada das empresas brasileiras ao setor têxtil do país e atribui o fato ao comportamento do governo da Argentina. Os setores têxtil e calçadista representam menos de 5% do intercâmbio comercial entre Brasil e Argentina. Portanto, o impacto da migração das fábricas brasileiras para o país vizinho nesses setores é muito pequeno na balança comercial. No total, a Argentina teve um déficit de US$ 3,6 bilhões com o Brasil em 2005, o dobro de 2004. Para mudar o sinal dessa balança, o fenômeno da migração de empresas teria que atingir setores mais importantes como o automotivo, o que não deve ocorrer no curto prazo. Nesses setores, o custo de investimento é muito alto, o que retarda decisões desse tipo. Maxmiliano Scarlan, economista da consultoria Abeceb.com, de Buenos Aires, estima que o déficit comercial da Argentina com o Brasil deve crescer neste ano, mas num ritmo menor, cerca de 10%, por conta dos efeitos do câmbio. (RL)