Título: Empresas voltam a produzir na Argentina
Autor: Raquel Landim e Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 13/03/2006, Brasil, p. A3

Comércio Exterior País vizinho atrai companhias brasileiras com câmbio, vantagens comerciais e juro baixo

Depois de fugir da Argentina por conta da crise que devastou sua economia em 2002, as empresas brasileiras começam a percorrer o caminho de volta. Fabricantes de têxteis e calçados retornam ao país atraídos pelos frutos da política econômica adotada pelo governo do presidente Néstor Kirchner: recuperação do consumo, câmbio desvalorizado e baixas taxas de juros. Como os traumas da última turbulência ainda são recentes e as cicatrizes foram profundas, os empresários brasileiros adotam uma estratégia cautelosa. Muitos estão terceirizando a produção para parceiros argentinos, que fabricam calçados e roupas com a tecnologia e a marca brasileira. Outros estão construindo fábricas ou ampliando a produção local em unidades já existentes. A Vulcabras iniciou uma parceria com a Alpargatas Argentina para produzir tênis no país. As calçadistas Picadilly e West Coast avaliam com cuidado a possibilidade de utilizar a mesma estratégia e a Hering está em busca do parceiro ideal para voltar àquele mercado. Algumas companhias são mais audaciosas. A Calçados Paquetá decidiu construir uma fábrica na Argentina. A Coteminas está ampliando e diversificando as atividades na fábrica que possui no país. As políticas protecionistas da Casa Rosada, que dificultam a entrada dos produtos brasileiros, também pesa na decisão. A Argentina estabeleceu licenças não-automáticas para a importação de calçados, o que burocratiza o processo. Na área têxtil, os dois países possuem um acordo que limita a exportação de alguns produtos a partir do Brasil. As empresas também querem aproveitar os acordos bilaterais da Argentina para exportar de lá para outros países. O México, por exemplo, taxa os calçados argentinos em 5% e cobra 35% para deixar o produto brasileiro entrar. Segundo o diretor-superintendente da Vulcabras, Milton Cardoso, a Argentina responde por um terço das vendas da empresa, que produz e comercializa tênis com a marca americana Reebok. A fábrica da companhia no Ceará produz 85% dos tênis que são vendidos na Argentina. O restante vem da Ásia. O executivo diz que a empresa enfrenta dificuldades para abastecer o mercado argentino com o produto feito no Brasil por conta do câmbio valorizado e do protecionismo do país vizinho. Por isso, resolveu alterar a estratégia, elevando a parcela de produtos que vêm da Ásia, que deve chegar a 20% neste ano, e produzindo localmente. "Na Argentina, é mais fácil importar um calçado asiático do que o brasileiro", reclama. A parceria da Vulcabras com a Alpargatas Argentina prevê a produção de 300 mil pares por ano, volume equivalente a 20% das vendas locais da companhia. Dessa maneira, a parcela de tênis produzidos no Brasil e exportados para a Argentina vai cair dos atuais 85% para 65% do mercado que a companhia detém no país vizinho. Desde 2005, a Vulcabras já terceiriza a produção de roupas com a marca Reebok na Argentina. A empresa não planeja demitir no Brasil, mas desde 2005 desacelerou o ritmo de contratações no país. O professor Mariano Laplane, da Unicamp, explica que o impacto da política econômica de Kirchner é mais rápido entre os fabricantes de têxteis e calçados porque são setores sensíveis ao aumento de consumo. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3% em 2005, a Argentina expandiu 9,1%. O país tem capacidade ociosa nesses segmentos e o custo dos investimentos é baixo. A Argentina possui outras vantagens competitivas para as empresas em relação ao Brasil, segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Enquanto o dólar está cotado a R$ 2,10 no Brasil, chega a 3 pesos na Argentina. A carga tributária está em 21% do PIB na Argentina e atinge 36,5% no Brasil. O custo do capital também é menor no país vizinho. Os juros reais na Argentina estão negativos em 3,2%. No Brasil, a taxa chega a 10,9%. O preço pago por Kirchner é a inflação. Em 2005, os preços subiram 5% no Brasil e 12% na Argentina. A Calçados Paquetá, de Sapiranga (RS), foi atraída pelos benefícios oferecidos pelo governo argentino. A empresa colocará em operação no início de 2007 uma unidade própria com capacidade de 1 milhão a 1,5 milhão de pares de tênis das marcas Diadora e Adidas por ano no distrito de Chivilcoy, na província de Buenos Aires. A companhia recebeu do governo municipal uma área de 75 mil metros quadrados e um pavilhão industrial de 5 mil metros quadrados. Em contrapartida, contratará 2 mil pessoas. Além de atender o mercado local, a planta poderá exportar para o "mundo inteiro", inclusive para o Brasil, adianta o presidente da Paquetá, Adalberto Leist. Segundo ele, já no mês que vem começa a funcionar uma fábrica-escola para treinar os funcionários, que irão produzir 600 mil pares neste ano, com 100% de conteúdo local. Segundo Leist, os tênis que serão fabricados na Argentina são produzidos hoje no Rio Grande do Sul (a Paquetá tem ainda unidades no Ceará e na Bahia), mas a idéia é "tentar" preservar a produção e o emprego gaúchos. "Vai depender do mercado", comentou. A empresa produz, no total, 12 milhões de pares por ano, dos quais até 85% são destinados à exportação. A Argentina absorve 800 mil. Todo o grupo, incluindo a rede própria de varejo com 120 lojas no Brasil, emprega 12 mil funcionários, sendo 9 mil nas fábricas. A Springs Global, conglomerado têxtil que resultou da fusão da brasileira Coteminas com a americana Springs, decidiu verticalizar a produção da fábrica na Argentina, diz o co-presidente da empresa, Josué Gomes da Silva. A indústria, que hoje fabrica apenas fios e tecidos, passará também a tingir e confeccionar toalhas. Hoje a fábrica envia os tecidos ao Brasil, onde as toalhas são confeccionadas. "A Argentina é muito competitivo em custo de capital, tributação, investimento e energia", justifica Gomes da Silva. O executivo diz também que decidiu ampliar em 35% a capacidade da fábrica. A empresa termina neste ano o investimento de 120 milhões de pesos previsto para o projeto.