Título: Alta de juros já começa a afetar as margens dos bancos americanos
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 13/03/2006, Finanças, p. C2
A vida tem sido boa para os bancos americanos. Os juros baixos, o aquecido mercado de hipotecas e os empréstimos tomados pelo consumidor americano têm enchido seus cofres. De acordo com a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), uma das muitas autoridades reguladoras dos Estados Unidos, os bancos tiveram lucros de US$ 135 bilhões no ano passado, o quinto ano consecutivo de lucros recordes - embora o Federal Reserve (Fed) tenha elevado os juros 14 vezes desde meados de 2004. Mas há sinais de que os melhores dias são coisa do passado. Apesar dos lucros, o ano passado também foi um período em que a rentabilidade patrimonial dos bancos caiu para 12,5%, em comparação ao pico de 15% registrado em 2003, segundo números da FDIC. Será que a alta dos juros está finalmente cobrando seu preço? Certamente ela está tornando a concessão de empréstimos pelos bancos menos lucrativa. Os bancos fazem dinheiro captando depósitos de curto prazo e emprestando-os por períodos mais longos, e a taxas maiores, para empresas, governos e lares. Nos últimos anos, a curva de rendimento (a diferença entre os juros de curto e longo prazo) está mais acentuada - e o negócio dos empréstimos está mais vagaroso. Mas com os juros de curto prazo subindo, a curva de rendimento se achatou - e até mesmo se inverteu. A FDIC avalia que os grandes bancos viram suas margens líquidas de juros espremidas de 4,06% no primeiro trimestre de 2002 para 3,48% no segundo trimestre de 2005, quando elas se estabilizaram. O Commerce Bancorp, que recentemente começou a se dar bem, viu sua margem líquida de juros cair para 3,77% no ano passado, de 4,28% em 2004, graças ao que Vernon Hill, o presidente do conselho de administração do banco, chamou de "o pior ambiente de juros dos anos recentes". A importância desse "aperto de margem" varia muito através do setor. Embora grandes e pequenos bancos dependam mais hoje das tarifas e honorários e menos dos empréstimos (e assim da renda com juros), do que dez anos atrás, as instituições menores tendem a ser mais dependentes dos empréstimos do que as maiores, e assim estão mais sujeitas aos riscos de uma curva de rendimento mais achatada. Segundo o instituto de pesquisas Morningstar, o Hudson City Bancorp, pequeno banco de poupança de Nova Jersey, obtém 99% de suas receitas com as rendas de juros. As receitas com taxas e honorários são 64% das receitas do JP Morgan Chase, por exemplo, e 47% das receitas do Citigroup. Para os banqueiros, uma conseqüência mais preocupante da alta dos juros é que ela afetou a demanda por hipotecas e refinanciamentos, que vinham reforçando seus lucros nos últimos anos. Segundo a Mortgage Bankers Association, as emissões de hipotecas para a compra de residências e refinanciamentos tiveram queda no quarto trimestre. Um esfriamento do mercado imobiliário, por sua vez, afetou os empréstimos para construções, que vinha sendo outra área em crescimento. Segundo a FDIC, no último trimestre de 2005 esses empréstimos foram 33,2% maiores do que no mesmo período de 2004, o de crescimento mais acelerado desde 1986. A maioria desses empréstimos vem sendo para projetos residenciais, mas, conforme observa Richard Brown, principal economista da FDIC: "Os melhores dias já passaram para tudo relacionado ao mercado imobiliário, pelo menos neste ciclo". Para piorar as coisas, o ritmo da captação de depósitos pelos bancos está diminuindo. Os bancos viram seus depósitos crescerem a taxas anuais de até 13% no começo da década, na medida em que os consumidores tiravam dinheiro de suas residências e guardavam no banco, pela falta de opções de investimentos mais atraentes. Mas uma análise feita pelo banco de investimento Fox-Pit, Kelton sobre o crescimento mensal dos depósitos nos grandes bancos comerciais mostra redução que começou em agosto de 2003 e se tornou mais acentuada em 2004 e 2005. A concorrência pelos depósitos "se intensificou" desde que o Fed começou a subir as taxas de juros, diz Jon Balkind, analista do Fox-Pit. Talvez a maior preocupação de todas neste momento seja a mais difícil de ser quantificada: uma queda na qualidade do crédito. A FDIC coloca a parcela de empréstimos não-correntes (aqueles que estão com os pagamentos atrasados em pelo menos 90 dias) sobre as dívidas totais pendentes em 0,74% no terceiro e quarto trimestres de 2005, pouco acima da baixa recorde do segundo trimestre. Como meio de comparação, em 1990 a taxa era de 3,5%. "A qualidade do crédito poucas vezes foi tão boa, se é que foi", diz Brown. Bom demais para durar, talvez. A alta dos juros ou uma retração econômica poderiam tornar difícil para as empresas e especialmente para os consumidores o pagamento de suas dívidas. Nos últimos dois anos a dívida dos lares americanos com as hipotecas cresceu quase um terço, para salgados US$ 1,8 trilhão segundo a FDIC. E o que é pior: parte desses novos empréstimos têm taxas de juros flutuantes, o que os tornam suscetíveis a condições de crédito mais apertadas. Outros esquemas de empréstimos interessantes, como as hipotecas "sub-prime", foram introduzidos para encorajar os americanos mais pobres a comprarem a casa própria. Embora isso tenha incentivado a "democratização" do mercado hipotecário, o que é louvável, alguns desses tomadores poderão se ver incapazes de pagar suas dívidas quando o mercado apertar. De fato, tanto banqueiros como autoridades reguladoras estão prestando muita atenção ao afrouxamento dos padrões de empréstimos, e aos preços franzinos de algumas hipotecas e empréstimos comerciais. E mais uma vez os bancos se tornaram adeptos do repasse dos riscos através dos derivativos e das securitizações de empréstimos. De fato, os mercados de capital - e em última instância os fundos de seguros e investidores em fundos de hedge e fundos de pensão - assumem cada vez mais os riscos das hipotecas não- tradicionais aos empréstimos comerciais que antes permaneciam nos balanços dos bancos.