Título: Credores aprovam proposta para reestruturar a Varig
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 24/02/2006, Empresas &, p. B4

Aviação Próximo passo será a busca de investidores interessados em comprar cotas do FIP-Controle

Após uma semana de duras negociações, os credores da Varig aprovaram ontem, em assembléia, o detalhamento do plano de recuperação judicial da aérea, que tem como base um modelo de gestão e controle, por meio de Fundos de Investimento em Participações (FIPs). O plano foi aprovado com 95,8% dos votos dos credores. Uma instituição financeira, a ser escolhida em assembléia no dia 13 de março, será responsável pela gestão do FIP-Controle, formado inicialmente pela transferência da participação acionária da FRB na Varig, hoje em 87%. O presidente da Varig, Marcelo Bottini, informou que os credores já sugeriram à aérea bancos como o Mellon, Bradesco e Itaú, mas a definição só sairá na reunião do dia 13. O detalhamento do plano prevê que esse gestor assumirá a administração do FIP-Controle até que o fundo atinja uma capitalização de R$ 750 milhões. A partir daí, será gerenciado por um comitê gestor, a ser definido pelos cotistas. Uma vez aprovado o documento, Bottini afirmou que o próximo passo será a busca de investidores interessados em comprar cotas do FIP-Controle. Segundo ele, a Varig vai fazer um 'road show' assessorada pelo banco UBS, consultor financeiro da companhia, dentro e fora do país, para a busca desses potenciais investidores. A assembléia de ontem foi marcada por momentos de tensão. Os trabalhadores, representados pela TGV (Trabalhadores do Grupo Varig), tentaram até o último momento conseguir uma liminar na Justiça que reduzisse o poder de voto do Aerus, ou seja, só seriam considerados os créditos repactuados com a Varig. A tentativa não foi bem-sucedida, mas o coordenador da TGV, Márcio Marsillac, disse que o grupo vai recorrer à Justiça. "A história não acabou aqui. Vamos recorrer para derrubar o voto do Aerus. Além disso, os trabalhadores (classe um de credores) não tiveram acesso ao mesmo detalhamento do plano apresentado às demais classes", disse ele. A TGV votou contra a aprovação do plano, por considerar que o texto final não refletiu os "interesses dos trabalhadores". Mas o voto dos principais credores das classes dois e três, entre eles Aerus, Infraero e BR Distribuidora, garantiram a ratificação do plano. Bottini, por mais de uma vez, pediu a palavra para explicar ao grupo de trabalhadores que o plano é "resultado de um consenso entre as diversas classes de credores". "Mas muitas vezes quando buscamos o ótimo, deixamos escapar o bom." O presidente do fundo de pensão Aerus, Odilon Junqueira, discordava de uma série de pontos do plano e até terça-feira defendia o voto contrário à aprovação do novo modelo de gestão da companhia. "Na quarta-feira estivemos reunidos com a Varig até as três horas da madrugada e chegamos a um consenso. Pontos considerados por nós fundamentais foram acatados, entre eles, a eliminação da figura do comitê gestor neste período inicial de capitalização do FIP-Controle", disse Odilon. O documento prevê num primeiro momento a distribuição de cotas aos credores que optarem pela conversão. Nesta etapa do processo, eles também podem negociar a venda de suas dívidas com eventuais investidores interessados em entrar como cotistas do FIP-Controle. Ao contrário do que estava previsto no texto original elaborado pela ASM Asset Management, investidores e credores não terão necessariamente que padronizar as dívidas em títulos habilitados, no âmbito dos FIPs-Crédito, ou seja, poderão converter cotas diretamente para o FIP-Controle. O modelo prevê a criação de três FIPs-Crédito, um para cada classe de credor. Todos aqueles que forem investidores qualificados, de acordo com as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), podem participar direto do FIP-Controle. A ASM foi contratada pela Varig para elaborar a nova estrutura societária da empresa. O texto prevê ainda a realização de leilões para a captação dos recursos que vão abastecer o fundo. Os cotistas contratarão uma corretora para coordenar esse processo. A meta é captar R$ 4 bilhões ao longo de três anos. A distribuição de cotas aos credores, assim como as duas primeiras ofertas públicas ocorrerão ao longo deste ano. O primeiro leilão ocorrerá 30 dias depois da oferta de cotas aos credores. Investidores e credores que optarem por não converter créditos em cotas ainda terão a opção de trocar essa dívida por Certificados de Crédito Bancário (CCBs). Aqueles que tiverem créditos passíveis de execução ou cobrança em foro estrangeiro poderão depositar esses créditos numa instituição financeira, ainda a ser escolhida, na forma de Recibo de Depósito de Crédito Documentário. O documento ainda precisa de aprovação da CVM.