Título: Petrobras vai reduzir exportação de gasolina
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 01/03/2006, Brasil, p. A3

Conjuntura Objetivo é atender ao maior consumo interno decorrente da menor presença de álcool no combustível

Para atender ao maior consumo no mercado interno, provocado pela redução de 25% para 20% do teor de álcool anidro na gasolina, que entra hoje em vigor, a Petrobras vai reduzir em 147 milhões de litros por mês as exportações de gasolina pura. A iniciativa compromete a meta da estatal de obter neste ano saldo de US$ 3 bilhões na sua balança comercial. Ao preço da quarta-feira passada (US$ 62,79 por barril), nos EUA, a perda de receita cambial seria de aproximadamente US$ 58 milhões por mês, ou US$ 580 milhões nos dez meses que faltam para completar o ano. Segundo dados fornecidos pelo diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, a empresa exporta atualmente 245 milhões de litros de gasolina por mês e passará a exportar apenas 98 milhões de litros, já a partir de março. A medida, segundo ele, é necessária porque com a redução do álcool na mistura, o consumo interno de gasolina (antes da adição do álcool) vai passar de aproximadamente 1,35 bilhão de litros para 1,45 bilhão por mês. Na ano passado, o Brasil exportou 2,81 bilhões de litros de gasolina automotiva, o que representa uma média mensal de 234,06 milhões de litros, segundo números fornecidos pela Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Esse total resultou em faturamento de US$ 1,06 bilhão, excluídas despesas com seguros e fretes. Em janeiro deste ano, as exportações brasileira de gasolina automotiva somaram 216,59 milhões de litros, resultando em um faturamento de US$ 86,83 milhões. A redução do total a ser exportado nos próximos meses - quase 50% maior do que os cem milhões de litros mensais que serão necessários para abastecer o mercado doméstico - tem uma complexa explicação técnica. É que o álcool tem uma taxa de compressão, expressa em octanagem (quanto maior a octanagem, ou número de octanas, mais o combustível precisa ser comprimido para detonar no motor, aumentando o desempenho do veículo), mais alta que a da gasolina. A redução do teor de álcool na mistura empobrece o combustível, e por isso a Petrobras precisa aumentar a octanagem da gasolina pura para que as propriedades da mistura à base de 25% de álcool (de 83 a 85 octanas) sejam mantidas na nova paridade. Isso, conforme explicou Costa, é obtido ajustando os equipamentos das refinarias para que a gasolina produzida saia com menor teor de nafta petroquímica. O diretor da estatal disse que as unidades de refino já estão sendo ajustadas para isso e que a nova configuração vai propiciar um excedente de 43 milhões de litros por mês de nafta, produto do qual o Brasil é importador. A maior disponibilidade interna permitirá que o Brasil, por intermédio das empresas petroquímicas, reduza de 200 milhões para 157 milhões de litros mensais as importações de nafta. Isso compensará em parte a perda de saldo comercial do país provocada pela redução nas vendas externas de gasolina, mas não terá impacto na balança individual da Petrobras, porque não é ela a importadora da nafta. Costa disse que, em termos de faturamento, a Petrobras fez as contas e constatou que não sairá perdendo e nem ganhando com as mudanças. A perda de faturamento externo será compensada com o aumento das vendas de gasolina e de nafta no mercado doméstico. De acordo com analistas do mercado de combustíveis, com a cotação atual do real em relação ao dólar, o preço (na refinaria) da gasolina no mercado doméstico está maior do que a cotação internacional do produto, mesmo a cotação internacional estando em um momento de pico.