Título: Consumo interno puxa economia do Japão
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 01/03/2006, Internacional, p. A8

Aquecimento Recuperação, que começou com exportações, já é sentida no comércio e nas ofertas de empregos Se os últimos dados se confirmarem, no ano passado o Japão (sim, o Japão) cresceu mais - a 2,8% - do que todos os outros países do G-7, excluindo os EUA. E, no último trimestre do ano, cresceu mais até do que os Estados Unidos, registrando taxa anualizada de 4,2%. O dados do PIB no Japão são notoriamente propensos a passar por revisões, que podem tirar algo do brilho da performance do fim de ano. Não há dúvidas, porém, de que a recuperação é sólida e de base cada vez mais ampla. Nos primeiros estágios da recuperação, o rápido crescimento das exportações foi crucial para impulsionar a produção industrial e, assim, os lucros das empresas. Depois de pequena acomodação, essas exportações se aceleraram de novo, graças à demanda particularmente forte da China. Em janeiro, a produção industrial cresceu pelo sexto mês consecutivo: 0,3% em relação a dezembro. Mas o que vem impressionando agora é a recuperação da demanda doméstica. Empresas com crescentes pedidos estão gastando em bens de capital: os investimentos fixos de capital cresceram a anualizados 7,2% no trimestre passado, enquanto a previsão para os pedidos de maquinário parece ótima. As empresas têm contratado mais trabalhadores e a oferta de empregos continua a crescer. Pela primeira vez em mais de dez anos, o Japão tem tantas vagas quanto gente procurando emprego. A demanda por trabalhadores empurra os salários para cima, o que já está sendo sentido no comércio. No último trimestre de 2005, o consumo pessoal saltou acentuadamente, crescendo a anualizados 3,2%. A confiança começa a voltar no mercado imobiliário também. As novas construções residenciais estão firmes, apesar do escândalo envolvendo fraude nos dados de resistência a terremoto em vários prédios, o que poderia minar a confiança no setor. Após um período em que a recuperação ficou restrita a Tóquio, ela agora se espalha por outros lugares, como nas áreas próximas a Osaka e Nagóia. Graças à demanda, os empréstimos bancários começaram a crescer pela primeira vez em anos. Com o país saindo da deflação, o Banco do Japão (BC) deve começar a mudar já em março ou abril a sua política de superfrouxidão monetária. Quais são os as manchas nesse retrato? Richard Jerram, economista da Macquarie Research, vê algumas. Uma é o baixo crescimento das importações para uma recuperação supostamente robusta. Isso em parte é reflexo de o aquecimento ocorrer em áreas que não a da indústria de transformação, mas principalmente no setor de serviços, que tem baixa demanda por importações. Mas há uma mancha mais preocupante. O mercado de trabalho cresceu 0,5% no ano passado, o que é insuficiente. Isso, diz Jerram, aponta para um desequilíbrio na mão-de-obra. As pessoas não têm qualificação suficiente para o tipo de trabalho oferecido. O emprego tem também um forte componente regional. Em Tóquio, há oferta de uma vaga e meia para cada trabalhador procurando emprego. Mas em Hokkaido e Kyushu, as ilhas mais ao norte e mais ao sul no Japão, ainda há pouco emprego à disposição. Por causa disso, os frutos da recuperação certamente serão divididos de modo desigual.