Título: A longa e incerta rota para a estabilização no Iraque
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 01/03/2006, Opinião, p. A10

O Iraque está novamente às voltas com a possibilidade do caos e da violência generalizada. O ataque que abateu parte da Mesquita Dourada, em Samarra - a mais reverenciada pelos xiitas e um de seus maiores símbolos religiosos -, jogou o país em uma onda de vingança de todos contra todos e colocou um perigoso ponto de interrogação nas tentativas de formação de um governo de coalizão que estavam em andamento. O potencial destrutivo do atentado poderá ir além das fronteiras iraquianas, se não for contido com a máxima habilidade política. A mira do terror se voltou contra um alvo de grande simbolismo para eliminar a chance de que algumas facções sunitas, desalojadas do poder com a derrubada de Saddam Hussein, aderissem a um governo que contemplasse as principais forças políticas do país, em negociações dirigidas pelo primeiro-ministro Ibrahim Al-Jaafari. Mesmo antes do atentado contra a mesquita xiita, a tarefa de Jaafari já se revelara muito difícil, devido a desavenças dentro da coalizão xiita dominante. O Conselho para a Revolução Islâmica no Iraque, uma das principais legendas xiitas, hostiliza o primeiro-ministro, que tem sido bancado pelos seguidores do clérigo radical Muqtada Al-Sadr, comandante de vários ataques contra as tropas de ocupação. O que está em jogo é a possibilidade de que o novo Estado se torne presa de feudos que o utilizem em seu proveito para esmagar adversários, como na era de Hussein. O governo americano fez repetidas advertências de que cortaria parte de sua assistência financeira se o encastelamento de facções no governo prosseguisse. Um dos alvos da admoestação é o Ministério do Interior, dominados por membros do Conselho, que comanda parte das forças de segurança e que as têm utilizado para assassinar adversários sunitas. A intervenção dos EUA foi atropelada pelo atentado à Mesquita Dourada. Os sunitas se retiraram das conversações e as reprimendas americanas soaram, para radicais islâmicos, como uma proteção disfarçada do ato criminoso cometido contra o santuário xiita. Após quase três anos de ocupação, as esperanças de paz e consolidação política do Iraque se tornaram mais frágeis do que nunca. As chances de impedir uma guerra religiosa repousa basicamente nas mãos dos líderes religiosos, cujo apelo à paz, sempre seguidos pelos xiitas, deixaram em boa parte de ser eficazes após o atentado. Aos poucos, porém, mesmo os radicais, como al-Sadr, se uniram a moderados, como o aiatolá Ali al-Sistani, para pedir calma a seus seguidores. Após mais de 300 mortes em uma semana, a onda de violência havia gradualmente refluído. Manifestações conjuntas de sunitas e xiitas mostraram que a violência sectária não encontra amparo em boa parte das duas comunidades e pode ser debelada. O atentado em Samarra, porém, apontou, por suas repercussões, que o quadro trágico de uma guerra civil no Iraque poderia se transformar em uma batalha entre os dois grupos religiosos em todo o Oriente Médio. A Arábia Saudita manifesta preocupações com a crescente influências do Irã, com o avanço dos xiitas (minoria no mundo árabe) no Iraque e também no Líbano. Dominados por grande número de governos sunitas, os xiitas têm se tornado uma força política mais agressiva e reivindicativa nos países do Golfo do que foram antes da invasão americana. Os riscos de criar no Iraque ocupado um conflito religioso com a participação de outros países - algo semelhante, mas com nuances importantes, ao da guerra civil libanesa - é um pesadelo em si e uma enorme catástrofe para as tropas americana. Sua presença se tornaria inútil, a não ser como alvo das mais variadas facções radicais do mundo árabe. Não há saída à vista para o atoleiro em que os Estados Unidos se meteram no Iraque. O caminho para a democracia, que envolve a retirada das tropas americanas e a consolidação de um governo que reúna as principais facções políticas, é ainda longo e incerto. Onde eleições puderam ser feitas, mesmo com restrições (como no Egito) e indicar uma preferência, elas apontaram para o avanço de grupos anti-americanos. Os ataques em Samarra, logo seguidos pela tentativa de explodir o maior conjunto petrolífero do mundo, na Arábia Saudita, são evidentes advertências de que o pior ainda pode acontecer no Oriente Médio.