Título: Light conclui negociação com credores externos
Autor: Leila Coimbra e Ivana Moreira
Fonte: Valor Econômico, 03/03/2006, Empresas &, p. B6

A Light encerrou a negociação com os credores externos que ameaçavam não aprovar a desverticalização da distribuidora carioca de energia, concluída dia 13 de janeiro. Para obter o consentimento desses credores, que ameaçavam pedir o pagamento antecipado da dívida causando seu "default", a Light propôs pagar um prêmio de 1,5% sobre a dívida renegociada no ano passado, de US$ 500 milhões. A proposta foi aceita e com isso o desembolso da companhia para encerrar a reclamação será de US$ 7,5 milhões. As negociações começaram em novembro, com as exigências de um grupo de credores liderados pelo Deutsche Bank Securities que detinha 70% dos papéis da dívida renegociada. Em valores de hoje, o grupo tinha papéis no valor de aproximadamente US$ 350 milhões e exigia uma série de garantias adicionais para aprovar a desverticalização, alegando perda da qualidade do crédito. Entre as alegações, estava a de que a distribuidora, detentora de toda a dívida, tinha perdido seus ativos de geração, que respondem por 18% da sua geração de caixa. A Light jogou duro com os credores tendo o apoio de dois peso-pesados: o Citibank, um dos contratados pela Electricité de France (EDF) para vender a distribuidora (o outro é o Goldman Sachs); e do Banco Itaú, maior credor da empresa em moeda nacional. Com ajuda dos dois bancos, a Light conseguiu "rastrear" no mercado os donos dos papéis, obtendo a adesão de 50,2% dos credores à sua proposta. A tarefa não foi fácil, explica o diretor de relações com investidores da Light, Paulo Roberto Ribeiro Pinto, porque esses papéis podem trocar de mãos várias vezes em um único dia. Mas com o apoio da maioria, a empresa conseguiu cumprir uma cláusula do contrato de renegociação que exigia a adesão de mais de 50% dos credores no caso de mudança nas garantias da dívida. O acerto envolveu ainda outros compromissos. Um deles foi a antecipação - de junho para março - , do pagamento da primeira parcela do principal da dívida, referente a 2% de US$ 500 milhões. Pelos cálculos de Ribeiro Pinto, a Light terá que antecipar US$ 10 milhões, o que segundo ele não será problema porque o pagamento já estava programado. Outra reivindicação atendida pela distribuidora foi um reforço das garantias. A Light holding deu garantias para o total da dívida renegociada e, adicionalmente, a Light Energia passou a garantir parte da dívida da distribuidora - Light Serviços de Eletricidade S.A. (Light SESA) - em volumes proporcionais aos ativos transferidos. Isso foi feito com utilização de um instrumento jurídico chamado "assunção imperfeita de dívida" que na prática garante o restabelecimento de um caixa único na distribuidora, como ocorria antes da desverticalização. O grupo de credores liderado pelo Deutsche Securities manifestou insatisfação com a nova distribuição das garantias da dívida da Light desde antes da separação dos ativos de geração, transmissão e distribuição, o que foi exigência da Lei 10.848/2004. Uma das reclamações dos credores era que a dívida tinha ficado com menos garantias. O diretor da Light contou que na reunião mais tensa com esse grupo de credores, realizada em Nova York, eles pediram um prêmio de 3,5% a 4% sobre a dívida renegociada. A preocupação manifestada na ocasião era com a proximidade da venda da Light pela EDF, que receberá na próxima quarta-feira as propostas dos seis grupos que já manifestaram interesse em assumir o controle da distribuidora e da térmica Norte Fluminense. "Eles chegaram a pedir a inclusão de uma cláusula de penalidade caso a Light antecipasse o pagamento da dívida, o que não é usual. Ofereci 1,5% para fechar o acordo. Se fosse antecipar o pagamento a Light pediria um desconto e não aceitaria uma cláusula de penalidade", conta Ribeiro Pinto. "Depois que colocamos a proposta na mesa o Deutsche não nos procurou mais. Foi então que partimos para rastrear os detentores de papéis para negociar diretamente", complementa. O diretor da Light explica que durante todo o processo de negociação deixou claro para os credores que ninguém iria ganhar com um pedido de "default" da Light. Ele destacou que nesse caso a questão iria parar na Justiça e os papéis sofreriam grande desvalorização.