Título: Negócios de bilhões na viagem ao Reino Unido
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 06/03/2006, Brasil, p. A2
Bilionárias negociações de bastidores, entre multinacionais britânicas e o governo brasileiro, precederam a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Inglaterra, que começa hoje, e recebe, a partir de amanhã, todas as pompas de uma visita de Estado. A mineradora Rio Tinto, rival mundial da Vale do Rio Doce, deve anunciar sua intenção de dar continuidade a um investimento de US$ 2,5 bilhões no pólo siderúrgico de Corumbá (MS), projeto parado há anos porque a lei brasileira proibe exploração mineral por estrangeiros em áreas de fronteira. Para assegurar o investimento, o governo se comprometeu com as autoridades britânicas a propor a alteração da lei em regime de urgência, decisão que será anunciada por Lula em Londres. A gigante farmacêutica GlaxoSmithKline também tem planos de investir cerca de US$ 300 milhões no Brasil, mas as negociações não progrediram a tempo de garantir um anúncio formal durante a viagem de Lula. A empresa, que já se associou à Fiocruz em um laboratório para fabricação de vacina tríplice, agora discute com o governo a produção no Brasil, para consumo externo e de exportação, de vacinas contra o rotavírus, causador de doenças gastrointestinais, grandes responsáveis pela mortalidade infantil na população de baixa renda. Mas os executivos da GSK, como é chamada a multinacional, querem mudanças nas regras nacionais de transferência de tecnologia. A movimentação dos últimos dias nos gabinetes de Brasília incluiu a visita - acompanhada pelos executivos britânicos - de um emissário do primeiro-ministro Tony Blair, que, em fevereiro, além de tratar das questões de Estado, também endossou as demandas das empresas para assegurar os investimentos, em encontros com autoridades brasileiras, como o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan. Uma demonstração de que se engana quem vê nessas visitas de Estado mera oportunidade para rapapé diplomático. A isso chama-se "big business". A iminente viagem de Lula serviu de pretexto para "incentivar" o governo brasileiro a tomar decisões aguardadas pelas empresas. A mudança da lei para garantir o investimento da Rio Tinto faz parte de um memorando de entendimento com o Ministério de Minas e Energia, desde fevereiro de 2005. Para garantir o investimento, seria necessário mudar a legislação aprovada em 1979, que proíbe empreendimentos sob controle de capital estrangeiro na faixa de 150 quilômetros da fronteira. A proposta do ministério, um projeto de lei, passaria a permitir empreendimentos que incluam processamento industrial do minério extraído. Com isso, seria viabilizado o projeto da Rio Tinto de ampliar a capacidade de extração da mina em Corumbá e, com isso, construir uma pequena usina para produzir um milhão de pelotas de ferro anualmente, uma usina para fabricação de 1,5 milhão de toneladas anuais de ferro esponja (matéria-prima na fabricação do aço) e uma aciaria para fabricação de placas siderúrgicas (2 milhões de toneladas por ano). Na semana passada, representantes do governo britânico receberam da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a informação de que há resistências políticas localizadas, mas que o governo está comprometido com a mudança da lei. Agora, a Rio Tinto, que concluiu recentemente os estudos de viabilidade do pólo, deve partir em busca de sócios para a parte industrial do projeto. A argentina Techint e a americana Nucor, que se interessaram pelo investimento nos estágios iniciais da discussão, deixaram o barco com a demora na decisão, e o conselho de administração da Rio Tinto faz questão de um sócio estrangeiro para o empreendimento.
Visita de Estado não é só um rapapé diplomático
No caso da GlaxoSmithKline, o desejo de coroar a visita de Lula com anúncios vistosos não foi suficiente para vencer os argumentos dos técnicos brasileiros. A legislação exige que, em investimentos como o planejado para a fabricação de vacinas, haja transferência de tecnologia ao sócio brasileiro em cinco anos. Essa regra valeu para a produção de vacinas tríplices pela Fiocruz, em associação com a GLK. Os ingleses argumentam, porém, que, no caso da vacina do rotavírus, a tecnologia é muito recente, e que consideram mais adequado um prazo mais extenso, de dez anos pelo menos. Os brasileiros, até sexta-feira, não haviam concordado em mudar a legislação para atender às conveniências da empresa, e os emissários britânicos chegaram a sugerir que o investimento poderia ser transferido para a Índia, com quem a empresa também tem acordos de investimento. Hoje, a Glaxo produz a vacina contra o rotavírus em instalações na Bélgica, de onde o Brasil importa o medicamento. Se concretizado o investimento da multinacional farmacêutica sediada na Inglaterra, cerca de 80% da produção deverá se destinar à exportação, especialmente para as Américas e África. O bom desempenho dos cientistas da Fiocruz e o sucesso da iniciativa com a vacina tríplice podem, ao fim, acabar pesando em favor dos brasileiros. Talvez o próprio Lula possa tirar a prova, no último dia de sua viagem a Londres, quando participará de um café da manhã com grandes empresários e executivos de finanças britânicos. Os dirigentes da Glaxo e da Rio Tinto (neste caso, o CEO da empresa, Leigh Clifford) estarão no convescote. No campo médico-científico, os ingleses também assediam o governo para uma possível associação da estatal britânica BPL, responsável pela produção de derivados de sangue, com a Hemobrás, estatal criada em 2004, a ser instalada em Pernambuco. Dificilmente se chegará a uma decisão a tempo de anunciá-la durante a visita de Lula, mas o tema é um dos que gerou forte esforço diplomático nas vésperas da partida do presidente para Londres. Não se conhece esforço semelhante do Brasil para acelerar, na Inglaterra, decisões de porte semelhante, a pretexto do sucesso da visita de Estado. Talvez pela falta de interesse do próprio setor privado brasileiro. Mas o exemplo do governo de Tony Blair mostra, com clareza, que, implicâncias e deslumbramentos à parte, as viagens presidenciais têm de ser vistas, no governo e entre empresários, com a importância que têm, como oportunidades de negócios.