Título: Mandelson pede "enorme contribuição" do Brasil
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 24/11/2004, Brasil, p. A-4
A União Européia (UE) espera "enorme contribuição" do Brasil e de outros países emergentes para abrir amplamente seus mercados à importação de produtos industriais e fornecedores de serviços (bancos, seguradoras, energia etc) sem o qual a negociação atual na Organização Mundial de Comércio (OMC) não será bem-sucedida. Essa foi a mensagem dada ontem pelo novo comissário de comércio da UE, Peter Mandelson, em visita à OMC. Em seu segundo dia no cargo, o novo negociador chefe da maior potência comercial do planeta começa a cobrar o preço do esboço de acordo agrícola assinado em julho, no qual o bloco aceitou, pela primeira vez, a eliminação de subsídios à exportação. Mandelson foi à OMC simbolizar que a prioridade européia é a Rodada Doha. Sinalizou que a nova Comissão Européia não tem pressa para fechar um acordo de livre comércio com o Mercosul e nem vai iniciar negociações com outros países até a conclusão da Rodada Doha. Tampouco tem pressa em fechar um acordo com o Mercosul antes da criação da Área de Comércio das Américas (Alca). Perguntado, retrucou: "Gostaria, mas não sei se é possível". Para o novo comissário, o essencial agora é que todos os parceiros redobrem esforços e "injetem urgência" nas negociações na OMC, para aprovar as modalidades (o percentual de cortes de tarifas e de subsídios) não só em agricultura, mas tambem em produtos industriais e serviços, na conferência ministerial da OMC em dezembro de 2005 em Hong Kong. Ele advertiu, contudo, que a UE "não pode ser seu único banqueiro" , julgando que já tem feito suficiente flexibilidade e concessões não só em agricultura, mas tambem no corte da própria agenda de Doha com a eliminação de temas como regras para investimentos e concorrência. A negociação real na OMC só será retomada em março ou abril, na avaliação geral em Genebra. E Mandelson já fixa o terreno, julgando ser necessário "sério compromisso" com ofertas mais ambiciosas já no mês de maio no politicamente sensível setor de serviços. Qualificou as ofertas na mesa de "inadequadas e insuficientes", sem possibilidades de bons negócios. A pressão é forte sobre o Brasil, país no qual Madelson diz ter "grandes expectativas porque é um líder (nas negociações na OMC)". O país é defensivo em produtos industriais e recusa negociação obrigatória para eliminar tarifas em vários setores, como calcados, têxteis e automotivo. Em serviços, sua oferta de abertura chegou com enorme atraso e dá acesso adicional aos estrangeiros em poucas áreas sem interesse econômico, como serviços fotográficos, de limpeza e de organização de seminários. Já os europeus querem poder se instalar livremente no setor bancário, por exemplo. Sobre o peso da liberalização, o novo negociador-chefe da maior potência comercial do planeta faz uma clara diferenciação entre países em desenvolvimento, encampando a tese de graduação rejeitada pelo Brasil e Índia. De um lado, Mandelson acena com "flexibilidades" para os mais pobres na concessão de preferências tarifárias e na imposição de regras de origem (que definem qual produto deve ter tarifa menor ou não nos acordos preferenciais) para, segundo ele, assegurar o aspecto de desenvolvimento no comércio. De outro, julga que os países em desenvolvimento mais avançados têm "um papel chave" para fazer concessões afim de "equilibrar as negociações". Lendo um texto preparado pela Comissão Européia, durante entrevista coletiva ontem cedo na OMC, Mandelson destacou que há "muita barganha pela frente", mas que isso acontecerá se "todos aceitarem que precisamos de progresso radical em todas as áreas: sim na agricultura, mas outras áreas da Rodada devem ter igual importância". O novo comissário disse, por outro lado, que no momento a UE não tem candidato a diretor-geral da OMC. Mas nos bastidores da OMC dá-se como certo que o ex-comissário Pascal Lamy anunciará sua candidatura nas próximas duas semanas, aumentando a concorrência para o candidato brasileiro Luiz Felipe Seixas Corrêa.