Título: Palocci irá atuar só nos bastidores da campanha pela reeleição de Lula
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 06/03/2006, Política, p. A10

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, terá papel crucial na campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na prática, Palocci já está assessorando Lula com vistas à eleição. Primeiro, indicou o novo marqueteiro do presidente - João Santana. Há duas semanas, pediu autorização, numa reunião na Granja do Torto com a presença dos ministros Jaques Wagner (Relações Institucionais) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), para começar a organizar a campanha. Apesar desse nível de envolvimento, Palocci não será o coordenador da campanha de Lula. Atuará nos bastidores como seu principal conselheiro e fará a ponte com empresários e banqueiros. Ajudará também na escolha dos principais nomes da campanha e na formulação do programa de governo. Em dezembro, o ministro chegou a cogitar a possibilidade de coordenar a campanha de Lula, mas, recentemente, desistiu da idéia. Palocci credita à oposição o fato de ainda estar no governo. Em novembro, quando enfrentou um duro e desgastante embate público com a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, Palocci por pouco não foi demitido do cargo. Naquele momento, seu partido, o PT, não o apoiou e, mesmo dentro do governo e no Palácio do Planalto, faltou-lhe suporte. Lula, pela primeira vez desde o início do mandato, pensou em substituir Palocci. Quem acabou ajudando a segurar o ministro foram os dois principais partidos de oposição - PFL e PSDB -, com quem Palocci sempre teve relações cordiais, e representantes do empresariado, preocupados com a possibilidade de Lula dar uma guinada na política econômica. Durante a disputa com Dilma, Palocci deixou claro que, se o rumo da economia mudasse, ele deixaria o governo. Essa possibilidade assustou a oposição, temerosa de que se instaurasse o caos no país, fato que representaria um fardo para a próxima administração. Em janeiro, quando depôs na CPI dos Bingos, Palocci novamente recebeu dos senadores da oposição um tratamento amigável. O ministro sobreviveu ao embate e, desde então, as denúncias contra ele amainaram. Ele acredita que, diante disso, seria arriscado assumir a coordenação da campanha. A oposição romperia a trégua e faria dele um de seus alvos prediletos. "A oposição se voltaria contra ele com violência, abrindo um flanco de ataques ao próprio Lula", diz um graduado assessor do Planalto. "Se ele sair do Ministério da Fazenda, perderá a caneta, perderá poder, mesmo mantendo em seu lugar alguém de sua confiança. A campanha pode ser um caminho sem volta", avalia outro assessor. Há uma outra razão, fora do controle de Palocci, que afasta o ministro da coordenação da campanha. O PT é majoritariamente contra essa possibilidade. Teme que o ministro imprima um tom "neoliberal" ao programa de governo de Lula para um possível segundo mandato. No partido, quem defende a ida de Palocci para a campanha é a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Marta disputa com o senador Aloízio Mercadante (PT-SP) a indicação para a eleição do governo de São Paulo. Aliada de primeira hora do ministro da Fazenda, a ex-prefeita acredita que, no comando da campanha nacional de Lula, Palocci poderá influir em seu favor. A princípio, o presidente apóia a indicação de Mercadante, mas pode mudar de idéia. Se, mesmo diante das razões mencionadas, o presidente decidir convidar Palocci para a coordenação, ele tentará convencê-lo de que essa não é a melhor idéia. Lula se preocupa com a falta de nomes de peso para a tarefa. Por isso, cogitou convidar o ministro da Fazenda. O presidente prefere não definir a estratégia e os nomes de sua campanha agora. É candidato, todos sabem disso, mas gostaria de adiar para junho os detalhes da empreitada. Na reunião da Granja do Torto, há duas semanas, Palocci, acompanhado de Dulci e Wagner, defendeu que a campanha comece a ser organizada agora. Convencido, Lula autorizou o início das conversas, mas pediu discrição aos três. O trio vai pensar na estrutura da campanha, mapear nomes para as funções a serem desempenhadas, sugerir diretrizes para o programa de governo, mas fará isso de maneira informal. Uma das tarefas do grupo é justamente sugerir um coordenador-geral. Segundo apurou o Valor, o ministro Luiz Dulci gostaria de desempenhar a função. Jaques Wagner também poderia ocupar o posto, mas, graças a um acordo que fechou nos últimos dias com o deputado Gedel Vieira, do PMDB, deve se desincompatibilizar do cargo de ministro no fim deste mês para disputar o governo da Bahia. Com a saída de Wagner da coordenação política, Palocci gostaria de assumir a função, mas desde que, para o Ministério da Fazenda, fosse indicado alguém comprometido com a atual política econômica. A dificuldade de Palocci está no Gabinete Civil: Dilma Roussef não vê a idéia com bons olhos. Um terceiro nome para a coordenação da campanha seria o do governador do Acre, Jorge Vianna. O problema é que Vianna sofre resistência de setores do PT que o consideram "excessivamente tucano", graças ao bom relacionamento que possui com o PSDB.