Título: O estresse e a participação feminina no ambiente corporativo
Autor: Sâmia Aguiar Brandão Simurro
Fonte: Valor Econômico, 06/03/2006, EU &, p. D6

A inserção feminina no mercado de trabalho trouxe inúmeros desafios. A globalização, as novas tecnologias, a competitividade desenfreada e a exigência cada vez maior de qualidade provocaram um aumento no volume de tarefa dos executivos. Não raro as pessoas passam mais de 12 horas por dia no escritório, fator que se agrava para a mulher. Quando essa participação vem motivada, não só pelo desejo de realização profissional, mas, também, pela necessidade de contribuir financeiramente na manutenção da casa, ela se encontra muito mais vulnerável diante dessas dificuldades. Enquanto a mulher sempre foi vista como sensível, frágil, intuitiva, sentimental, compreensiva, conciliadora, sonhadora, e se atribui a ela o mérito da união, tolerância e justiça, ao homem é dada à imagem de rapidez, praticidade, atividade, pragmatismo, agressividade e força. Se por um lado a educação da mulher sempre foi orientada para a família, o homem é estimulado a vencer desafios e a superar seus limites. E quando isso se transporta para o mundo corporativo, embora o discurso valorize qualidades como colaboração e empatia, ligadas a características femininas, no momento da contratação ou da promoção, em geral, vencem figuras heróicas, associadas ao sexo masculino. Na realidade, as características masculinas são, freqüentemente, competências apreciadas nas organizações. E são reconhecidos os assertivos e competitivos. Ou seja, não é nada fácil ser uma mulher moderna. Como obter sucesso profissional, ver os filhos bem encaminhados, cuidr da casa e ainda ter tempo para cuidar de si? Qual o fio condutor para alcançar e manter o equilíbrio sem perder a essência que sempre lhe foi peculiar? O que fazer com a sensibilidade feminina? Conciliar esta nova realidade com o antigo modelo que persiste é o grande desafio. Diante de tantas demandas, o estresse tem se agravado e aparece como vilão implacável à saúde e à qualidade de vida da mulher. A impressão que se tem é de que, "características femininas" não "combinam" com o mercado dos negócios. Resultado: o índice de estresse na mulher é mais intenso do que o do homem. Em uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica, 91% das mulheres se declararam estressadas. Isso representa muito mais do que as estatísticas masculinas. O que se observa é que, se o ambiente favorece longas jornadas de trabalho, a mulher é obrigada a esticar sua dupla jornada. Não é para menos. Hoje, mais de 26% das famílias brasileiras já são chefiadas pelo sexo feminino, segundo dados do IBGE. E cresce de forma significativa o número de mulheres que são responsáveis financeiramente pela casa. No trabalho, a pressão por resultados no caso do "sexo frágil", por exemplo, é igual ou maior do que a que existe para o homem. A mulher continua tendo que provar competência para ter credibilidade e respeito na função que exerce. Tudo isso junto conduz ao estresse. Embora muita coisa tenha mudado e a lista das conquistas femininas seja bastante grande, há muitas questões não solucionadas. Apesar de já representarem mais de 40% da população ativa do país, as mulheres ganham apenas 67% do salário dos homens, na mesma função. Poucas são as que atingem cargos gerenciais (24%), e na hora da promoção a funções de maior poder e prestígio, são sempre preteridas em benefício dos homens . A aproximação do modelo masculino de atuação surge como tentativa para a mulher provar que também tem condições de assumir cargos de decisão. Nesse trabalho de convencimento sobre sua competência, o aspecto da sensibilidade acaba ficando guardada a sete chaves. O fato é que o padrão feminino de comportamento é sempre esperado, mas não necessariamente reconhecido como parte da estratégia gerencial. O que ocorre é que quando a mulher num cargo de comando incentiva a equipe ou informa sobre assuntos tratados em uma reunião na qual um funcionário não participou, suas ações são interpretadas como um desejo feminino de humanizar as relações de trabalho. Nesse caminho, a mulher perde seu diferencial, o que o consultor americano Tom Peters chama de vantagem competitiva. Humanizar o ambiente de trabalho para que os profissionais sintam-se mais saudáveis, respeitados, motivados e produtivos tem sido a preocupação de algumas grandes empresas. A mulher, assim como o homem, tem muito a contribuir com a organização, por meio do seu estilo próprio de gestão. Mas não é preciso concentrar esforços para se igualar ao homem. Considero importante integrar essas diferenças. E não cabe apenas à mulher a solução desse problema. Nesse novo edifício do relacionamento corporativo que temos de construir, para que se torne seguro e sólido, os tijolos precisam ser compostos de inclusão, respeito e proteção do espaço de cada um. A sugestão é começar pelo tijolo da igualdade de oportunidades para todos.