Título: Pegos de surpresa, fornecedores europeus reagem
Autor: Daniel Rittner
Fonte: Valor Econômico, 09/03/2006, Empresas %, p. B3

Clima tenso, calor sufocante, uma sala pequena demais para acomodar todos os presentes e uma platéia de jornalistas e observadores nas quais as declarações - a favor e contra - tomaram, algumas vezes, o lugar das perguntas. Realizado ontem, o encontro da Coalizão DVB Brasil, que defende a adoção do padrão europeu de modulação para TV digital, pareceu um bom retrato da desorientação do grupo com a notícia, publicada pela "Folha de S. Paulo", de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já teria escolhido o padrão rival japonês. A princípio, Marcos Magalhães, presidente da Philips para a América Latina, disse que se tratava de uma notícia "como várias outras". Mas diante da insistência sobre o assunto, afirmou: "Não é que o evento tenha sido feito no dia seguinte, a notícia é que foi plantada antes do evento." Magalhães preferiu não prolongar a história - "acho muito estranho", limitou-se a dizer -, mas Claudio Raupp, da Nokia, afirmou que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, garantira, no dia anterior, que nada havia sido decidido. A ministra recebeu um grupo da Nokia, encabeçado por Mark Selby, vice-presidente mundial de negócios multimídia da empresa. O encontro de ontem, na Cidade Universitária, ocorreu para atender a uma solicitação do governo. O Ministério das Comunicações havia pedido a realização de uma demonstração do sistema até amanhã, quando expira o prazo original para o anúncio da decisão. Formada por seis empresas - Philips, ST Microeletronics, Siemens, Thomson, Rohde&Schwarz e Nokia -, a coalizão tem defendido um prazo maior para a definição da tecnologia pelo governo. Só assim, dizem eles, seria possível fazer os testes necessários e discutir os modelos de negócio que serão criados ao redor da TV digital. Mas, ontem, nos corredores, a visão geral era a de que os defensores do padrão europeu demoraram muito para se organizar. Mesmo na mesa do encontro - que tinha representantes do meio acadêmico - essa avaliação era clara. O professor Marcelo Zuffo, da Universidade de São Paulo, disse que em apenas quatro dias, o tempo para organizar a demonstração, foram feitos avanços. "Mas se vocês tivessem se reunido há cinco anos, não estaríamos aqui agora", afirmou. Segundo Zuffo, as empresas que abraçaram o padrão europeu conseguiram harmonizar a tecnologia em 14 países da Europa, mas "o sistema andou pouco no resto do mundo". O sistema de TV digital é composto de várias tecnologias. É o caso do middleware, que funciona como o sistema operacional de um computador. A Universidade Federal da Paraíba já desenvolveu uma versão do sistema, compatível tanto com o padrão japonês como com o europeu. É a discussão sobre esse padrão de modulação que divide as atenções. As emissoras de TV querem o padrão japonês; os fabricantes de equipamentos e operadoras de telefonia celular preferem o europeu. Os radiodifusores têm um forte argumento a seu favor: eles dizem querer que a TV móvel - recebida via celular ou por meio de dispositivos instalados em automóveis, ônibus etc - seja igual à TV aberta: gratuita para o espectador. As operadoras ficariam com a receita das chamadas originadas pelos serviços interativos. As operadoras e fabricantes de aparelhos dizem que não estão interessadas em ganhar dinheiro com a transmissão de TV aberta no celular, mas reivindicam um controle maior sobre os serviços interativos, que vá além dos pulsos. Elas afirmam que o padrão japonês não é flexível e, por isso, defendem o europeu. "A TV aberta e gratuita é boa, mas temos de discutir modelos adicionais", disse Mario Baumgarten, principal executivo de tecnologia da Siemens. Um alto executivo de uma concessionária de telefonia diz que a escolha do padrão japonês "não será um desastre, mas vai gerar um desenvolvimento menor" dos negócios para as empresas de telecomunicações. Isso porque, no sistema asiático, as características de alta definição e mobilidade não deixam muito espaço no espectro para a implantação de canais adicionais. No padrão europeu, essa "sobra" é maior e é nela que as teles vêem a maiores oportunidades. Para Juarez Quadros, que atuou como ministro das Comunicações no governo FHC, as operadoras têm interesse na TV digital independentemente do padrão que for escolhido. Na feira Telexpo, Quadros disse que o europeu permite a veiculação da TV fixa e no celular em um único canal, mas como a transmissão móvel nesse padrão requer muita banda, na prática são necessários dois canais. Hoje, japoneses e europeus fazem novas incursões. Uma comitiva da Arib, o consórcio japonês, vai a Buenos Aires encontrar-se com autoridades argentinas, informou Yasutoshi Miyoshi, presidente da Primotech 21, empresa de componentes. A notícia da escolha antecipada também surpreendeu o grupo, disse Miyoshi. Já a Coalizão DVB receberá membros do governo brasileiro, que assistirão à demonstração da tecnologia.