Título: Brasil pressiona vizinho por padrão japonês
Autor: Daniel Rittner
Fonte: Valor Econômico, 09/03/2006, Empresas %, p. B3

TV digital Governo se mobiliza nos bastidores para que a Argentina opte pelo mesmo sistema de transmissão

O governo brasileiro já se mobiliza sutilmente, nos bastidores, para influenciar a decisão dos países vizinhos na escolha do padrão de TV digital. É apenas por interferência direta do Palácio do Planalto que executivos do consórcio japonês responsável pelo sistema ISDB vão a Buenos Aires hoje, para apresentar uma proposta comercial e tentar convencer os argentinos a decidir pelo mesmo modelo tecnológico que dispara na condição de favorito para ser adotado no Brasil. Antes dessas gestões vindas de Brasília, a Argentina estava preparada para optar entre o sistema americano ATSC e o europeu DVB. O país vizinho deverá tomar a sua decisão neste mês. Ontem, o Palácio do Planalto passou o dia negando a informação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já teria escolhido o padrão de TV digital. Segundo assessores, Lula recebe apenas amanhã, ao voltar de viagem à Inglaterra, os relatórios de avaliação de cada um dos ministérios envolvidos na discussão. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, defende abertamente a adoção do sistema japonês. Mas enfrenta resistência de áreas como o Desenvolvimento e até uma certa cautela da Casa Civil. O principal argumento daqueles que defendem o padrão japonês, dentro do governo brasileiro, é que ele é superior tecnicamente e possibilitará a transmissão gratuita do sinal digital a receptores móveis (veículos) e portáteis (celulares), bem como a alta definição em aparelhos fixos - tudo na mesma faixa de freqüência. Mas o fator decisivo será o nível de comprometimento dos japoneses quanto à eventual instalação de uma fábrica de semicondutores no país, área em que o Brasil tem mantido forte déficit comercial. "Não há como assumir um compromisso de investimento tão grande num espaço tão apertado de tempo", afirmou ontem o diretor da MP Consulting, Murilo Henrique Pederneiras, que representa o consórcio japonês no Brasil. No lugar da certeza de uma fábrica, os japoneses vão apresentar uma minuta para a criação de um comitê bilateral que estudaria, nos próximos meses, a viabilidade de implantação da produção de chips no país. Os japoneses se dispõem a avaliar também, conjuntamente com os brasileiros, a possibilidade de "adensar a cadeia produtiva", segundo Pederneiras. Ou seja, nacionalizar a produção de componentes de televisores, que hoje são majoritariamente importados para montagem, apenas, em território brasileiro. Na mesma minuta, os japoneses vão formalizar o compromisso de abrir mão de 100% dos royalties pagos pela tecnologia asiática, de conceder uma linha de crédito de US$ 500 milhões para financiar a digitalização das emissoras e fábricas brasileiras, além de garantir um assento a pesquisadores locais no consórcio que desenvolve o sistema e incorporar futuramente tecnologias aperfeiçoadas por técnicos brasileiros - como o sistema de compressão de vídeo MPEG-IV e os aplicativos do "middleware". Paralelamente, em Buenos Aires, a expectativa é grande para saber o que os japoneses proporão ao principal parceiro do Brasil no Mercosul. Em 1998, a Argentina anunciou a sua opção pelo padrão americano de TV digital. No entanto, voltou atrás e jamais ratificou essa decisão pelos mecanismos legais. No ano passado, quando abriu consultas novamente, o governo procurou os consórcios internacionais e recebeu, do presidente local da NEC, a informação de que os japoneses não tinham interesse em entrar no mercado argentino. Os argentinos já entravam na fase final de negociações com os americanos e europeus quando foram finalmente procurados pelos japoneses, por gestões diretas de Brasília. A chegada dos asiáticos a Buenos Aires é bem-vinda porque leva um terceiro concorrente. Mas o país vizinho considerou precipitadas as declarações de Hélio Costa em favor dos japoneses e recebeu com surpresa o favoritismo dos asiáticos no Brasil. Em suas avaliações internas, o governo argentino não viu nenhuma diferença significativa entre os três sistemas e esperava tomar uma decisão conjunta no Mercosul. Mas, vendo o favoritismo dos japoneses no Brasil, preferiu resguardar-se para uma decisão que atenda plenamente aos interesses locais.