Título: Pasta das Cidades é o eixo da reforma
Autor: Maria Lúcia Delgado e Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 24/11/2004, Política, p. A-7
A reforma ministerial só deverá continuar depois que o governo renegociar a aliança com o PMDB. A previsão, no governo, é que nenhuma decisão seja tomada nesta semana. Ontem, havia informação entre interlocutores do presidente Lula que o atual ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, poderá se deslocar para o Planejamento (Seplan) e que o presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), deverá assumir a Pasta das Cidades. Hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está conduzindo pessoalmente as negociações da reforma, se reúne com deputados do PMDB. Amanhã, fará viagem a Tucuruí e, na sexta-feira, irá a São Paulo. "Não se deve esperar anúncio de nomes esta semana", disse um assessor direto de Lula. Na noite de segunda-feira, o presidente se reuniu durante cinco horas, na Granja do Torto, com 17 dos 18 ministros do PT - a única ausência foi a de Tarso Genro, da Educação, que está na Espanha. O encontro serviu para unificar o discurso do governo, num momento em que as divergências internas têm crescido. "Há um clima de aumentar a nossa coesão para a defesa ofensiva do governo. Botamos a casa em ordem em 2003, em 2004 começamos a colher bons resultados e temos que ser mais ofensivos em 2005", disse Genoino. A conversa com os ministros petistas serviu também para prepará-los para as mudanças que virão. "O fiador das alianças sou eu", tem dito Lula a políticos do PT e de outros partidos com quem tem mais proximidade, para deixar claro que somente um governo de coalizão viabilizará a sua reeleição em 2006. É com essa lógica reservada e discurso firme que o presidente está conduzindo as negociações com PMDB, PP e PT. Tanto no Congresso quanto no Palácio do Planalto, interlocutores de Lula acreditam que o Ministério das Cidades será peça-chave na reacomodação do ministério. A expectativa quase consensual entre os parlamentares é que o ministro Olívio Dutra deixará a Pasta das Cidades, sendo substituído por um pemedebista ou por João Paulo Cunha. Embora o presidente da Câmara seja um nome credenciado pelo PT para ocupar a Coordenação Política - função que os petistas querem voltar a controlar -, o Lula não quer tirar o ministro Aldo Rebelo da função. Ricardo Berzoini já teria demonstrado eficácia administrativa por onde passou, por isso, pode assumir a Seplan e ceder a Pasta que ocupa ao PMDB. Não é novidade que a reforma terá que ampliar o poder político do PMDB e reconhecer o PP como um parceiro na coalizão, com direito a pelo menos uma cadeira no primeiro escalão. A dúvida é se o PMDB teria de fato três ministérios, ou se as duas pastas que ocupa hoje seriam alteradas. Os pemedebistas querem um ministério com recursos orçamentários e capilaridade, ou seja, capacidade de atender de forma mais direta demandas de prefeitos e parlamentares. "O presidente é que é o árbitro. Ele mesmo disse que está desenvolvendo negociações com o PMDB, inclusive para examinar as possibilidades de o partido ter mais um ministério", afirmou o presidente do Senado, José Sarney, após sair de encontro com o presidente Lula. Outra avaliação feita no meio político é que os ministros do PMDB não são "imutáveis". Sendo assim, crescem as especulações sobre uma possível substituição de Amir Lando (Previdência Social). A pasta continuaria com o PMDB, mas o ministro pode ser outro. Já o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, que mostrava-se frágil no cargo, tem um aliado importante: o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Patrus tem se aconselhado com o prefeito, que defende sua manutenção no ministério, fazendo reformulações administrativas que aumentem a eficiência dos programas sociais. Pode ser que Lula dê um prazo ao ministro para tais ajustes. Especula-se ainda que pode haver troca de titulares na Saúde e na Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca.