Título: PMDB encontra Lula e espera cargos
Autor: César Felício, Henrique Gomes Batista e Maria Lúci
Fonte: Valor Econômico, 24/11/2004, Política, p. A-7

Os governistas do PMDB esperam hoje criar condições para requererem formalmente o adiamento da convenção do partido marcada para 12 de dezembro, que deve definir se a sigla fica ou não na base do governo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá almoçar com a bancada dos deputados do partido na casa do ministro das Comunicações, Eunício Oliveira. Segundo o líder do partido na Câmara, José Borba (PR) caso o presidente repita aos deputados a oferta de mais um ministério ao PMDB feita no jantar aos senadores na sexta-feira, conseguirá o que quer. "É tudo o que nós precisamos: mais espaço", disse o parlamentar. De acordo com Borba, "tudo que for possível conquistar será bem vindo", desde que o ministério tenha recursos e o ministro, carta branca para nomear e demitir. Se este resultado se confirmar, os governistas vão pedir ao presidente da sigla, Michel Temer (SP), que a convenção não se realize. Embora tenham a hegemonia na Executiva Nacional e no diretório, os governistas temem perder entre os convencionais, já que os que querem o rompimento com o Planalto controlam os Estados mais importantes. "Não cabe a mim vocalizar como isto se dará. Não tenho a menor dúvida de que somos majoritários", afirmou o ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, escandindo as sílabas. Eunício foi à Câmara, acompanhado do ministro da Previdência, Amir Lando, para discutirem com Borba o almoço de hoje. Para tentar impedir que este clima de congraçamento prevaleça, os favoráveis ao rompimento prometem ir ao almoço. "Vou avisar amanhã (hoje) ao presidente Lula que teremos a convenção no dia 12 e que se o PMDB decidir sair do governo, manteremos a governabilidade do país, mas que se decidirmos ficar, não será uma aliança de governo, mas uma aliança política visando as eleições de 2006", disse, descartando qualquer possibilidade de adiar a convenção. "Mesmo os governistas deveriam querer a convenção e tentar resolver isso dentro dela". Para Temer, "hoje a bancada da Câmara dos Deputados está dividida meio a meio". Caso a posição de Temer não prevaleça, sua posição como dirigente nacional começa a ficar ameaçada. Ontem, o presidente do Senado, José Sarney (AP), que é contra a realização da convenção em 12 de dezembro, fez críticas diretas ao presidente nacional do partido. Segundo Sarney, a proposta de fazer a convenção para tratar do rompimento com o governo "é um gesto pessoal do presidente Michel Temer". Apesar de as contas da direção do PMDB mostrarem o contrário, Sarney garante que é majoritária no partido a corrente que quer permanecer no governo. "A maioria da Comissão Executiva, 17 comissões regionais, as bancadas da Câmara e Senado são contrárias (a deixar a base de sustentação do governo). Então, evidentemente, o pensamento do presidente Michel não expressa o pensamento do partido. Ao contrário. É um pensamento divergente da maioria", afirmou. O presidente do Senado disse ainda que se a direção do PMDB fosse organizada de acordo com o sistema parlamentarista, caberia uma moção de desconfiança a Temer, por não representar o desejo da maioria. "Porque se a maioria não deseja e se faz isso, não se pode encaminhar neste sentido", concluiu. Uma moção de desconfiança contra um primeiro ministro acarreta na sua destituição e na convocação de novas eleições. Na disputa pelos convencionais, os defensores do rompimento já não contam mais com a manutenção dos governadores do Paraná, Roberto Requião, e de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira, na frente a favor da retirada do governo. Mas consideram que eles não darão todos os votos dos convencionais catarinenses e paranaenses ao Planalto. Anteontem, o diretório regional de Santa Catarina enviou a Temer uma nota oficializando sua decisão afastar-se do governo federal. Os diretórios do Rio de Janeiro e de Tocantins fizeram o mesmo.