Título: Gripe aviária eleva estoque e derruba preço e exportação
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 09/03/2006, Agronegócios, p. B16

Sanidade Volumes domésticos armazenados somam 300 mil toneladas; 50 mil deixam de ser embarcadas

A indústria brasileira de frango já acusa os primeiros prejuízos significativos em decorrência do avanço da gripe aviária no mundo, principalmente na Europa. As exportações do produto recuam enquanto os estoques se acumulam no Brasil, derrubando as cotações do frango também por aqui. Nesse cenário, que ainda deve piorar no curto prazo, como admitem os exportadores, a única saída vista pelo setor é reduzir a produção em 25%. Em fevereiro passado, as exportações brasileiras de carne de frango totalizaram 199 mil toneladas, 7,8% a menos que em igual mês de 2005 e também abaixo das 213 mil toneladas embarcadas em janeiro deste ano. O volume exportado é o menor desde janeiro de 2005, conforme os números da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Carne de Frango (Abef). Segundo o presidente da Abef, Ricardo Gonçalves, estima-se que 45 mil a 50 mil toneladas deixaram de ser exportadas por causa da retração do consumo, principalmente na Europa. Esse cálculo, disse Gonçalves, se baseia na idéia de que os embarques continuariam crescendo no mesmo ritmo que em janeiro passado, quando ainda tiveram alta de quase 14%. Os preços da carne brasileira exportada também recuaram em fevereiro na comparação com janeiro, já reflexo da pressão dos importadores para renegociar contratos e valores com os frigoríficos exportadores. A tonelada do frango caiu de US$ 1.310 CIF (custo e frete), em média, em janeiro para US$ 1.230 em fevereiro, conforme a Abef. "O setor começa a ser afetado de forma importante", reconhece Gonçalves. Segundo ele, outro efeito do pânico que derrubou o consumo de carne de aves é que existem "aproximadamente" 200 mil toneladas de carne de frango brasileiro estocadas em países importadores, o equivalente a cerca de um mês de exportações. Os estoques domésticos também crescem, já que há produto que seria exportado sendo desovado no mercado local. De acordo com a União Brasileira de Avicultura (UBA), são cerca de 300 mil toneladas de frango nos estoques, o equivalente a três semanas de consumo. Clóvis Puperi, da UBA, afirma que o normal são estoques para 10 dias de consumo. Por conta dos estoques elevados, todas as câmaras frias de frigoríficos estão repletas, e as empresas já estocam produtos até em carretas frigorificadas, segundo José Carlos Godoy, da Associação Brasileira dos Produtores de Pintos de Corte (Apinco). "Não há espaço", diz. A maior oferta de frango no mercado interno também derrubou os preços no atacado. De acordo com levantamento da Jox Assessoria Agropecuária, o preço médio do frango inteiro resfriado no grande atacado paulista fechou em R$ 1,32 o quilo. Estava em R$ 1,35 um mês antes. Na comparação com o valor médio de dezembro passado, o tombo é bem maior. Naquele mês, a cotação média foi R$ 1,73 o quilo, segundo a Jox. O frango vivo no mercado independente paulista também foi pressionado pela maior oferta e recuou para R$ 0,95 ontem. Estava em R$ 1,00 desde 13 de janeiro. Fontes do setor disseram que ofertas de frango vivo da Avipal por R$ 0,80 pressionaram o mercado. A empresa anunciou que irá paralisar três unidades em abril por conta da queda das exportações. Procurada, a empresa não se pronunciou. Para Ricardo Gonçalves, o setor precisa se adaptar à nova situação, que já faz até os bancos serem mais criteriosos na hora de dar crédito aos frigoríficos. Por isso, em reunião na na terça-feira com representantes de toda a cadeia produtiva de frango em São Paulo, a conclusão foi que é preciso reduzir em 25% o alojamento mensal de pintos de corte, que foi de 408 milhões em janeiro, para diminuir a oferta de carne de frango. Conforme Clóvis Puperi, da UBA, essa redução deve ocorrer de forma gradativa, começando com 10% a 15% de diminuição no alojamento. "Muitas empresas já tomaram a medida de reduzir 10% a 15%", diz Gonçalves, acrescentando o dólar desvalorizado agrava a situação afetando ainda mais a rentabilidade do setor. Mas os efeitos da redução do alojamento demorarão a aparecer, segundo Godoy, da Apinco. Para ele, os resultados das medidas tomadas agora só aparecerão em, no mínimo, 70 dias, período que corresponde à incubação do pinto mais a criação do frango que será abatido. (Colaborou Sérgio Bueno, de Porto Alegre)