Título: Para cúpula tucana, Serra já aceita disputar governo de São Paulo
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 10/03/2006, Política, p. A6

O que parecia improvável passou a ser possível. Integrantes da cúpula do PSDB passaram a sinalizar, ontem, que o prefeito de São Paulo, José Serra, pode sim aceitar o desafio de disputar o governo de São Paulo, deixando livre o caminho para o governador Geraldo Alckmin disputar a Presidência da República. Alckmin e Serra podem comunicar hoje, em São Paulo, ao presidente da legenda, senador Tasso Jereissati (CE), ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ao governador Aécio Neves a decisão acertada entre ambos. Eles se encontraram ontem para finalizar as conversas. "Tem acordo", garantiu um dirigente tucano ao Valor. Para parte do PSDB, essa seria a solução dos sonhos, pois os tucanos não querem arriscar perder a hegemonia que desfrutam no Estado ao longo dos últimos 12 anos. Outros integrantes da legenda consideram altamente arriscado apostar em Alckmin numa eleição presidencial que, com a verticalização mantida, pode ser definida logo no primeiro turno. Há uma semana, quando Fernando Henrique jogou no ar a idéia de Serra disputar o governo - diante da encruzilhada da disputa presidencial -, o prefeito reagiu da pior forma possível. Chegou a classificar a idéia de absurda, conforme relatos de aliados dele. Nos três últimos dias, Serra passou a cogitar a hipótese, mas encomendou pesquisas do Ibope para balizar a decisão. A equipe do prefeito animou-se com a possibilidade, e passou a incentivá-lo. "O pessoal do Serra quer muito que ele dispute o governo estadual", confessou um tucano próximo ao prefeito. Diante dos sucessivos equívocos estratégicos do PSDB nos últimos dois meses, os conflitos pessoais de Serra em deixar a prefeitura, e com a insistência de Alckmin em manter-se no páreo para a disputa presidencial, o governo estadual passou a ser um vôo mais possível para o prefeito. Pesaria, ainda, o fato de o berço do PSDB ser São Paulo, Estado que representa 22% do colégio eleitoral. Tasso Jereissati negou que a pesquisa que mostra a possível vitória de Serra no Estado tenha sido encomendada pelo PSDB nacional. Não escondeu, no entanto, a satisfação com o resultado - Serra teria grandes chances de vencer Marta Suplicy no primeiro turno em São Paulo. "Que as pesquisas são alentadoras são. É expressivo (o desempenho de Serra)", declarou o senador cearense. "Está longe de ser provável, mas não me parece impossível", definiu ontem o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), que dias antes sequer cogitava a hipótese de Serra ser candidato a governador. O acordo, se for de fato consumado, não passará somente por 2006. Alckmin assume que, se eleito, articula o fim da reeleição e deve propor o mandato de cinco anos. A vaga, em 2010, fica reservada para Serra. Aécio Neves disputaria o Senado. A disputa em São Paulo já vinha preocupando o PSDB há meses. Sem candidato forte para a disputa, o partido tentava assimilar uma derrota para o PT ou o PMDB, caso Orestes Quércia de fato entre na disputa ao governo, uma aposta que ninguém faz no meio político por enquanto. Os candidatos tucanos ao governo apresentados por enquanto - José Aníbal, Paulo Renato Souza, Aloysio Nunes Ferreira e Alberto Goldman - sequer superam 5% das intenções de voto. "Se Serra aceita ser o candidato ao governo de São Paulo, abro mão da minha candidatura imediatamente", reiterou ontem o ex-ministro Paulo Renato, que participou de audiência pública em Brasília e almoçou com Tasso Jereissati. Conforme um dirigente tucano, a candidatura de Serra ao governo estadual agrada a muitos correligionários. O vereador José Aníbal insiste em disputar. Quando aceitou ser candidato a vereador, Aníbal teve a promessa de que se transformaria no presidente da Câmara Municipal. O prefeito Serra não conseguiu articular a vitória de Aníbal.