Título: Fábrica da Ford no ABC pisa no freio
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 10/03/2006, Empresas &, p. B1

Os funcionários da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo (SP) vão passar mais tempo em casa nos próximos meses, quando a montadora deve adotar medidas como o banco de horas e férias para reduzir o ritmo de produção. Ao mesmo tempo em que foi a mais afetada pela queda nas exportações da Ford, a unidade do ABC entra agora em um período de compasso de espera até o início da produção de um novo carro compacto, que será lançado em 2008. Não fosse o projeto do novo automóvel, que está sendo concebido pela equipe de engenheiros brasileiros, os 3,1 mil trabalhadores da fábrica, a mais antiga da Ford no Brasil, estariam com um problemas. Este é o último mês de estabilidade para eles. Chegou ao fim um contrato firmado em 2001 entre a matriz da companhia, nos Estados Unidos, e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que lhes garantiu emprego por cinco anos. " Vamos precisar desses trabalhadores para produzir o novo carro " , diz o presidente da Ford na América do Sul, Antonio Maciel Neto. Uma parte desse contingente - cerca de 800 pessoas - já foi deslocada para a linha de caminhões, instalada no mesmo complexo industrial e que ganhou fôlego nos últimos tempos. Os demais vão acumular o tempo parado em banco de horas ou férias. Uma das idéias é esticar a folga de feriados para o restante da semana. Isso já ocorreu no carnaval. A fábrica de São Bernardo do Campo parou durante toda a semana enquanto que na unidade de Camaçari (BA), que opera a pleno vapor, a folga foi mais curta. A ociosidade no ABC é também conseqüência da queda de pedidos de exportação, resultado da valorização do real, segundo Maciel Neto. Essa fábrica, onde são produzidos o compacto Ka e a picape Courier, foi a que mais sofreu com os reajustes de preços no mercado exterior. Os consumidores de carros mais simples são mais sensíveis aos aumentos de preços. A Ford elevou os preços dos carros exportados em torno de 18% nos últimos meses. Já os modelos produzidos na fábrica da Argentina, onde o câmbio está mais favorável, foram poupados e não houve reajustes. Ela produz na Argentina o Focus e a picape Ranger. Por conta disso, os volumes de exportação do Ka devem ser reduzidos a um quarto, em relação ao pico da venda externa. " Não fosse a queda na exportação, a fábrica de São Bernardo estaria trabalhando normalmente. " Em 2005, a Ford exportou US$ 1,4 bilhão. O projeto do novo automóvel em São Bernardo do Campo será uma maneira de resolver o problema de ociosidade na unidade e de, ao mesmo tempo, a marca conseguir dar a guinada que precisa para ampliar participação num mercado em que predominam os carros pequenos. Com apenas o Ka, a Ford tem uma fatia insignificante no segmento que a indústria chama de " carros de entrada " , aqueles voltados para quem ingressa no mercado de zero-quilômetro. A Ford está em quarto lugar no mercado brasileiro, com participação em torno de 12%. Segundo Maciel, sem um modelo novo no segmento de mercado que mais cresce no Brasil, a participação da Ford tenderia a cair. Projeções da montadora indicam que em poucos anos o mercado anual no Brasil passará de 1,6 milhão para 2 milhões de unidades. Segundo o executivo, sem um automóvel novo na faixa de modelos pequenos, a fatia da marca tenderia a cair para 9%. Além das máquinas e de toda a estrutura para abrigar a nova linha de montagem, a fábrica da Ford em São Bernardo do Campo está sendo preparada para receber fornecedores. A empresa confirma que alguns fabricantes de peças já aderiram ao plano que prevê a a instalação na área da montadora.