Título: Ganho das teles cresce, mas receita está sob ameaça
Autor: Talita Moreira
Fonte: Valor Econômico, 10/03/2006, Empresas &, p. B3
Balanços Operadoras fixas tiveram resultado 33,6% maior em 2005
As operadoras de telefonia fixa apresentaram lucro líquido 15,5% maior no quarto trimestre de 2005, encerrando um ano de resultados positivos para o setor. Entretanto, com perspectivas de reajuste tarifário baixo e tráfego em queda, o desempenho das teles está sob ameaça neste exercício. As concessionárias Telemar, Telefônica, Brasil Telecom e Embratel lucraram juntas R$ 955,6 milhões entre outubro e dezembro, em comparação com R$ 827,7 milhões no mesmo período de 2004. Em todo o ano passado, o ganho líquido das empresas cresceu 33,6%, segundo cálculo do Valor Data. A Telemar, que atua no Sudeste, Nordeste e Norte, teve lucro de R$ 416,4 milhões no quarto trimestre, alta de 42%. O balanço, divulgado ontem, aponta lucro de R$ 1,1 bilhão em 2005. Em termos reais, o resultado ficou ligeiramente acima do número apresentado em 2000 - que até então havia sido o melhor da história da operadora. Alguns fatores contribuíram para isso: o reajuste de tarifas de telefonia fixa compensou a queda no tráfego, as vendas de celulares e acessos à internet em banda larga também cresceram. Para completar, a Telemar transferiu para debaixo da Oi, sua unidade de telefonia móvel, o controle da Pegasus, que atua no segmento corporativo. A iniciativa resultou numa reversão das provisões de de R$ 172,5 milhões para o pagamento de tributos da empresa de telefonia móvel. Com isso, a Oi, que fecharia o período no vermelho, lucrou R$ 11 milhões no ano. Melhorias operacionais, especialmente na telefonia móvel, foram preponderantes no resultado da Telemar, compensando o fato de ela ter registrado o menor crescimento da receita entre as operadoras no último trimestre. A empresa obteve receita líquida de R$ 3,1 bilhões entre outubro e dezembro, apenas 2,7% superior ao montante faturado no mesmo período de 2004. Em todo o ano passado, as vendas subiram 5,7%. O caso da Telemar é indicativo do que está ocorrendo no setor. Em 2005, a receita conjunta das concessionárias aumentou 7,2% - em linha com o reajuste das tarifas de telefonia local. No ano passado, a correção pelo IGP-DI e negócios como internet e celular ofuscaram a queda no tráfego de telefonia local e o cancelamento de linhas. Mas parte desse efeito não deve se repetir em 2006. Com a inflação sob controle, operadoras e analistas prevêem que o reajuste anual - que acontece em julho - ficará perto de zero. A correção será feita considerando a variação de sete meses do IGP-DI no ano passado e cinco do recém-criado Índice do Setor de Telecomunicações (IST), que entrou em vigor em janeiro. "Pode haver queda na receita das operadoras", observa Luciana Leocádio, analista da BES Securities. De acordo com ela, as empresas terão de reduzir custos para evitar a queda da rentabilidade. "Será um ano difícil em termos de receita, mas o impacto nas margens ainda não deve ser muito significativo", diz Felipe Cunha, analista do Brascan. O diretor de relações com investidores da Telemar, Roberto Terziani, afirma que o reajuste deverá ser muito pequeno. "O crescimento virá dos serviços móveis, banda larga e dados, mas tudo depende muito do desempenho da economia." O presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher, também já manifestou preocupação com a queda do tráfego diante de novas tecnologias e de um volume maior de ligações feitas a partir do celular. "A queda vai continuar, é inexorável", afirmou, em apresentação no fim do ano passado. O executivo destacou que a BrT precisa ser ágil, pois as chamadas locais ainda representam 70% da receita. Não por acaso, as operadoras têm investido em banda larga e estão de olho em serviços como voz sobre protocolo de internet e transmissão de vídeos. Entretanto, a fonte de crescimento é limitada. Terziani prevê que a base de clientes de banda larga da Telemar aumentará entre 20% e 25% neste ano, depois de ter crescido 79,6% em 2005, quando ficou em 655 mil acessos. O executivo avalia que o número deve continuar se expandindo por dois ou três anos - até esbarrar nas limitações da renda dos brasileiros. A Telemar desagradou os analistas e investidores ao declarar que pretende distribuir R$ 785 milhões em dividendos referentes a 2005, menos do que no ano anterior. As ações da empresa foram negociadas em queda ontem na Bovespa por conta disso.