Título: Medida argentina pode beneficiar Brasil
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 10/03/2006, Agronegócios, p. B16
A decisão da Argentina de suspender quase todas as suas exportações de carne bovina por 180 dias pode acelerar o fim do embargo de alguns países ao Brasil e ampliar os embarques brasileiros para a Europa, acreditam exportadores e analistas. A medida, anunciada para conter a inflação no país, prevê que só serão permitidas as exportações da cota Hilton. Nesse programa, a Argentina pode exportar 28 mil toneladas de cortes nobres para a União Européia, livre de imposto, anualmente. Outra exceção são os embarques para países com os quais a Argentina tem acordos bilaterais de importação de carne. Para Antônio Camardelli, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), a decisão argentina pode ajudar a solucionar os embargos à carne bovina brasileira, impostos após a confirmação de casos de aftosa no Mato Grosso do Sul e no Paraná. Países como Chile, Argélia e Rússia, devem, agora, avaliar mais rapidamente as garantias dadas pelo governo brasileiro sobre os controles da febre aftosa, acredita Camardelli. Um caso emblemático é o do Chile, que depende bastante da carne argentina e também da brasileira. O país embargou as compras de carne bovina do Brasil após a aftosa. Segundo Camardelli, para se abastecer, o Chile tem comprado carne bovina até da Austrália, um mercado de preços elevados. "O Chile está pagando US$ 4.000 pela tonelada de patinho [tipo de corte] da Austrália, enquanto o produto custa US$ 2 mil no Brasil". Para ele, a decisão do governo argentino de segurar as exportações de carne - que teriam subido em função da maior demanda por causa da gripe aviária - também pode ampliar a demanda européia pelo produto brasileiro. Camardelli avalia que os Estados que têm permissão para exportar para a Europa - São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul estão fechados - podem aumentar os embarques para aquele mercado. Segundo ele, no começo do embargo, os frigoríficos readequaram a produção de suas plantas para Estados que não estão proibidos de exportar à União Européia. Assim, é a partir dessas unidades que os frigoríficos poderiam ampliar seus embarques. Jerry O'Callaghan, da Coimex, concorda e acrescenta que a Rússia também poderia levantar o embargo parcial ao Brasil antes de junho, mantendo a proibição às áreas afetadas pela febre aftosa. A Sociedade Rural Argentina (SRA) estima que a decisão do governo vai custar aos exportadores argentinos US$ 585 milhões em perda de receitas. Segundo Luciano Miguens, chefe da SRA, a Argentina pode ter dificuldade de recuperar mercados se deixar de exportar carne bovina porque outros países irão ocupar seu espaço. Além disso, os preços da carne podem subir no longo prazo no mercado interno argentino porque a medida desencoraja o investimento e a expansão do setor, que exportou o recorde de US$ 1,4 bilhão em 2005 e um volume de 600 mil toneladas. A Confederação de Associações Rurais de Buenos Aires e La Pampa) informou que irá à Justiça contra a medida, segundo a FolhaNews.