Título: Dependendo do alinhamento astral
Autor: Antonio Delfim Netto
Fonte: Valor Econômico, 14/03/2006, Brasil, p. A20
A partir de 1986, a economia brasileira - salvo curtos períodos de lucidez - tem sido atormentada por políticas cambiais inadequadas. A penúltima "bricolage" deu-se no mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando batemos às portas do FMI duas vezes e acumulamos um déficit em conta corrente da ordem de R$ 186 bilhões. A última vem se acentuando no governo Luiz Inácio da Silva. Depois de brilhante resultado, em que pagamos o FMI e acumulamos um razoável nível de reservas, a inacreditável política monetária, com seus juros reais de 13% ao ano, levou o real a uma supervalorização, que está desorganizando amplos setores exportadores com "vantagens comparativas" comprovadas. Devido às favoráveis condições internas e externas, o real deveria se apreciar em relação ao dólar (como se apreciaram todas as futras moedas), mas não há nada que sugira que ele deveria ser a moeda mais valorizada do mundo! Foi o criminoso diferencial de juro real interno sobre o juro real externo que permitiu a operação de arbitragem que se realiza com a compra de reais e que continua a supervalorizá-lo. É claro que a situação externa melhorou muito, mas boa parte dessa melhora nada tem a ver com a política deste governo. Ela vinha sendo construída desde quando Armínio Fraga assumiu o comando do Banco Central no início do segundo mandato de FHC e consolidou o regime de câmbio flutuante num ambiente interno e externo altamente favorável. Foi a conjunção de boa política interna com um ambiente externo favorável que permitiu às exportações brasileiras a sua rápida expansão, como se vê no quadro abaixo: Os números desta tabela relativizam o "retumbante sucesso exportador" que o governo anuncia: fomos bem, certamente, o que não aconteceu entre 1985 e 2002, mas não melhores do que os outros emergentes. A verdade é que pela primeira vez em quase duas décadas aproveitamos a maré alta... Foi isso que permitiu ao Brasil livrar-se da maldição da dependência externa construída na octaetéride fernandista, como se vê abaixo: O toque de tristeza nesses números é a persistência do baixo crescimento do PIB que nos acompanha depois do governo Itamar Franco (crescemos 5,4% ao ano 1993/94). De 1995 a 2005, a média de crescimento tem sido de 2,4% ao ano, um dos mais baixos do mundo: mesmo com nossa revolução demográfica, levará três gerações para dobrar a "renda per capita" dos brasileiros... A política monetária de 2005 foi devastadora. No terceiro trimestre de 2004 vínhamos crescendo a 5% ao ano, quando o Banco Central "descobriu" sérias tensões inflacionárias (até hoje, apesar do benefício do tempo, ainda não encontradas) e iniciou uma série de aumentos da taxa Selic que foi reduzindo o crescimento do PIB acumulado no ano até o trimestre indicado, como se vê na tabela abaixo:
O trágico resultado final de tal política foi: 1) o desperdício de 2,7% de crescimento, em troca de uma redução de no máximo 1% da taxa de inflação (a inflação em 2005 não seria muito maior do que 6,5% contra 7,6% em 2004); e 2) uma supervalorização do real, transformado na commodity mais desejada dos especuladores internacionais. O grave problema é que algumas autoridades estão tomando a melhora da situação externa como resultado de suas virtudes e, portanto, definitiva. Há séria controvérsia. Qualquer movimento externo mais forte que reduza o crescimento mundial e uma aceleração do nosso pornográfico crescimento pode alterar a atual situação, que é resultado de uma particular conjunção de forças externas favoráveis e da falta de crescimento interno.