Título: Cúpula do PSDB pode anunciar diretório como arena de decisão
Autor: César Felício, Ivana Moreira e Caio Junqueira
Fonte: Valor Econômico, 14/03/2006, Política, p. A10
A cúpula do PSDB deverá anunciar hoje a convocação de uma consulta ampliada às lideranças regionais para decidir se o candidato do partido à Presidência será o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou o prefeito paulistano José Serra, caso o impasse persista até esta manhã, como tudo indica. É muito provável que o fórum escolhido será o Diretório Nacional da sigla, com 213 votos. Ontem, o presidente nacional do partido, senador Tasso Jereissati (CE) marcou uma reunião da Executiva Nacional para hoje, sem horário definido. Ainda nesta terça, Tasso deve se reunir com governadores do partido, entre eles o mineiro Aécio Neves. Também estará presente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A Executiva é a instância partidária habilitada para convocar o Diretório, com um prazo de no mínimo cinco dias para realizar o encontro. Se essa for a decisão da Executivo, o colégio eleitoral tucano poderá se reunir no domingo, 19 de março, aniversário de José Serra, para bater o martelo. A consulta ampliada tornou-se praticamente inevitável com os sinais dúbios dados por Serra ontem de que aceitará disputar publicamente a candidatura com Alckmin, se for necessário. Em conversa com jornalistas, disse que decidiu deixar "à disposição do partido" sua indicação para disputar a Presidência da República, desde que a disputa não chegasse à realização de prévias com os filiados. Afirmou ainda que iria examinar o cenário se Alckmin não apoiá-lo em um primeiro momento, mas sem realização de prévias. Ressaltou que, sem unidade, as chances na eleição ficarão comprometidas. A declaração fez com que circulasse por Brasília a informação de que a cúpula partidária interpretava o posicionamento como uma desistência da disputa. Alckmin também disse ontem que aceita disputar no diretório nacional. "Não tem nenhum problema. A data final é 31 de março por conta do prazo de desincompatibilização. É um prazo legal que não pode ser ultrapassado", disse. O Diretório Nacional tucano equivale praticamente a uma pré-convenção. O colegiado do PSDB tem mais integrantes que os do PT (noventa) e PMDB (113) somados. Ainda há discussões dentro do partido para reunir um fórum menor para decidir a questão restrito à Executiva Nacional e aos governadores, mas a decisão deve ser referendada pelo colegiado maior. Mesmo com seus poderes mitigados, o trio formado por Tasso, pelo governador mineiro Aécio Neves e pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso terá papel decisivo caso a decisão vá a voto. Tasso tem ascendência direta sobre os 20 votos do Ceará e deve ser acompanhado, no mínimo, pelos três representantes do Rio Grande do Norte. Aécio começa o jogo com os dezessete votos de Minas. O mesmo número dos integrantes do Diretório Nacional que serviram diretamente no governo de Fernando Henrique. Aécio viajou no início da noite para São Paulo, para participar da reunião prévia à Executiva, com Tasso Jereissati, Fernando Henrique e outros governadores. Ele negou ter declarado apoio a Alckmin, como foi noticiado. "Isso diminuiria o papel que foi delegado a mim, que é o da construção da unidade partidária", disse o mineiro. Embora tenha admitido que a escolha poderá ser levada à votação no diretório nacional do PSDB, caso não seja possível um acordo entre Alckmin e Serra, o governador de Minas tomou o avião para São Paulo dizendo acreditar que uma decisão final será tomada nesta terça-feira, com o anúncio de um nome. De acordo com um presidente de um diretório regional que não é o paulista, o fato de Serra já ter sido presidente do partido, ministro de Estado e ter carreira política mais longa que a de Alckmin deveria sinalizar uma ligeira vantagem sua em relação ao governador. Mas os riscos de sua candidatura -em especial abandonar a prefeitura após pouco mais de um ano- fazem com que seus predicados não prevaleçam.