Título: EUA confirmam terceiro caso de "vaca louca" no país
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 14/03/2006, Internacional, p. A11
A confirmação de um terceiro caso da doença da "vaca louca" nos Estados Unidos ontem e a ameaça da Argentina de manter o embargo às suas exportações de carne bovina por um ano devem reduzir a oferta do produto no mercado internacional - valorizando os preços - e podem beneficiar a carne brasileira. O produto brasileiro enfrenta o embargo de 56 países por conta do ressurgimento da febre aftosa no país, em outubro do ano passado, mas o novo cenário no mercado internacional de carne pode acelerar o fim desses embargos. Ontem, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos - USDA informou que testes confirmatórios em um animal do Alabama comprovaram a doença da "vaca louca", ou encefalopatia espongiforme bovina (BSE, na sigla em inglês). Teste anterior tinha apresentado resultado "inconclusivo". Segundo o veterinário chefe do USDA, John Clifford, a vaca que foi testada positiva para a doença passou o último ano numa propriedade no Alabama. Ainda conforme Clifford, o animal foi enterrado na fazenda e sua carne não entrou na cadeia alimentar animal ou humana. A vaca infectada é da raça Santa Gertrudis com idade incerta, mas acredita-se que com mais de 10 anos com base em sua dentição. Essa idade indicaria que o animal nasceu antes da implementação, em 1997, da proibição do uso de restos animais na ração pela FDA - Administração para Alimentação e Medicamentos dos EUA. A proibição do uso desse material ocorreu porque se acredita que restos de tecido cerebral de animais infectados seriam os responsáveis pela contaminação de gado bovino. Clifford disse ainda que o USDA está buscando localizar animais que nasceram no mesmo rebanho que a vaca infectada no período de um ano. A confirmação do terceiro caso de vaca louca nos EUA - o primeiro foi em dezembro de 2003 no Estado de Washington, e o segundo, no Texas, foi divulgado em junho do ano passado - pode dificultar as negociações americanas para retomar as vendas a países como Japão e Coréia do Sul. Esses países suspenderam as importações de carne bovina americana após o primeiro caso de "vaca louca". Taiwan, Filipinas e Indonésia também bloquearam, mas já aliviaram o embargo. Para Jerry O'Callaghan, diretor de carnes da Coimex, se o embargo for retomado e se Japão e Coréia se mantiverem fechados aos EUA, a Austrália, segundo maior exportador mundial de carne bovina, deve ganhar espaço nesses mercados, onde já tem importante participação. O Brasil, por sua vez, ganharia espaço em regiões como Oriente Médio e Filipinas, onde concorre com a Austrália, já que este país tenderia a priorizar vendas de carne para Japão e Coréia do Sul, mercados que pagam melhores preços. O Brasil também pode ser favorecido se a Argentina decidir ampliar para 12 meses o embargo às exportações de carne bovina numa medida para conter a inflação no país. Na semana passada, o governo argentino anunciou a suspensão dos embarques por seis meses, mas ontem a ministra da Economia Felisa Miceli disse que o prazo pode subir para um ano se os preços da carne bovina no mercado doméstico não caírem. Pela medida argentina, o país pode exportar apenas 28 mil toneladas para a UE (a chamada cota Hilton). "Países como Chile, Rússia e Argélia não têm opção de fornecimento [de carne] e terão de levantar o embargo ao Brasil em breve", disse O'Callaghan. Esses países também se abastecem com a carne argentina.