Título: Efeitos das altas dos juros nos EUA, Europa e Japão
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2006, Opinião, p. A14

As taxas de juros voltam gradualmente a subir de forma sincronizada nas principais economias do mundo. O Japão, o segundo maior PIB do mundo, deu sinais de que não será mais necessário usar a política de liquidez exagerada para debelar uma deflação que durou sete anos e o Banco Central Europeu elevou pela segunda vez a taxa da zona do euro, para 2,5%. Nos EUA, torna-se mais provável a hipótese de que o Federal Reserve precisará levar os juros até a casa dos 5% para manter a inflação próxima ou abaixo de 2%. Os mercados começam a se agitar e realocar investimentos, movimento que tem causado recuos recentes nas bolsas de países emergentes, como o Brasil. A conclusão óbvia desse novo ambiente é que a atratividade dos investimentos nos países emergentes tende a declinar e o fluxo de capitais, que bateu em 2005 um recorde para a região, já não deverá ser mais tão intenso. O que inquieta os mercados é a incerteza sobre a magnitude e a velocidade da adaptação a um cenário de juros mais altos, após três anos de farta liquidez e capital extremamente barato. A resposta vai depender da saúde das economias que empurram o crescimento mundial - EUA, Japão e União Européia, mais a China - e da evolução da inflação. Até onde se pode ter uma previsão segura, há pouca coisa no momento que sugira que a transição será turbulenta. As preocupações se intensificaram na semana passada, quando o Banco Central japonês anunciou que encerraria sua política de inundar os bancos com dinheiro a custo zero para combater uma deflação que parecia não ter fim. Isso mudou. Os preços no atacado subiram 2,9% em fevereiro, maior alta em nove anos. A inflação ao consumidor não chega a 0,5%, mas deve ser pelo menos positiva porque a economia do país, após uma letargia de muitos anos, voltou a crescer. O PIB anualizado pelos dados do quarto trimestre indicaram crescimento de 5,3%, com expansão pelo terceiro ano consecutivo. Os empréstimos bancários, aniquilados pela taxa de juros zero, cresceram pela primeira vez em 9 anos no mês passado. A mudança na política monetária gera mais inquietação no próprio Japão. Há temor de que um movimento intempestivo extermine o germe do crescimento econômico. Sob intensa pressão do governo, o BC sinalizou que as taxas permanecerão como estão até setembro e não ultrapassarão 0,5% provavelmente até o fim do ano. É pouco para causar uma comoção, embora tenha colocado em alerta os investidores em "carry trade" - financiamento de posições a custos inimaginavelmente baixos no Japão para aplicações em outros mercados rentáveis. Outro efeito potencial da guinada japonesa é que, com o tempo, os japoneses se sentirão mais estimulados a aplicar no mercado doméstico que nos EUA, como vêm fazendo. A tendência colocaria dificuldades adicionais para o financiamento do enorme déficit externo americano e poderia contribuir para a elevação dos juros pagos pelo Tesouro dos EUA em seus títulos. Ainda assim, nada indica que isso ocorrerá de forma abrupta e a curto prazo. Apesar dos indicadores contraditórios, a economia dos EUA permanece com ritmo robusto. A bolha imobiliária, um fator de preocupação, começa suavemente a desinchar e o emprego aumenta consistentemente. O salário por hora cresceu em fevereiro ao ritmo de 3,5% ao ano. Embora o núcleo de inflação não aponte variações muito significativas, o IPC nominal já ultrapassou 4% nos 12 meses encerrados em janeiro. A pressão de custos, a maior facilidade das empresas em repassá-los e os voláteis preços da energia levam os analistas a prever novas rodadas de aumento de juros até pelo menos 5%. Apesar disso, o lucro das empresas americanas ultrapassaram os dois dígitos em relação ao período anterior pela décima vez consecutiva no último trimestre de 2005. Sem uma redução importante dos investimentos dificilmente os EUA deixarão de crescer entre 3% e 3,5% no ano. A inflação começa a se afastar dos 2% na zona do euro, motivo pelo qual o BCE subiu os juros. Mas as perspectivas de uma expansão de 2% na zona do euro tornou-se agora mais plausível. O ritmo de crescimento mundial deve chegar aos 3,5%, se não ocorrerem surpresas desagradáveis com o petróleo. A perspectiva é de uma diminuição lenta e progressiva dos fluxos de capitais para os países emergentes, em uma velocidade e intensidade que não devem ser motivo de grande preocupação.