Título: Resposta à ascensão da Ásia
Autor: Martin Wolf
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2006, Opinião, p. A15
Mundo está sofrendo um enorme choque de oferta, mas os ricos não devem reagir com protecionismo
Como podem os países ricos competir com as potências asiáticas emergentes? Estas não apenas possuem gigantescos reservatórios de mão-de-obra barata e fortemente aplicada ao trabalho, como também estão rapidamente melhorando a qualidade de suas exportações. Em pouco tempo, alega-se, os gigantes asiáticos roubarão mercado de cada produtor estabelecido nos países ricos. Apesar disso, nossa auto-suficiência local nos salvará. Mas isso é tolice. Efetivamente, o mundo está sofrendo um enorme choque de oferta, assim como ocorreu antes da Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, o choque deveu-se a um crescimento no estoque efetivo de terras, quando as ferrovias e os navios a vapor incorporaram o "novo mundo" à economia mundial. Desta vez, trata-se de uma expansão no estoque efetivo de mão-de-obra, que triplicou ao longo das últimas duas décadas, segundo Richard Freeman, da Universidade Harvard. Numa economia mundial integrada, sugere Helmut Reisen, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o ponto de equilíbrio dos salários reais em países de alta renda deverá cair aproximadamente 15% ("China and India's Implications for the World Economy", www.oecd.org/reisen ). Não vivemos em tal mundo. Isso é evidentemente verdadeiro para a mão-de-obra, onde rígidos controles sobre a migração dividem o mercado mundial: nessa linha, um estudo para o Birô de Estatísticas de Trabalho dos EUA conclui que o custo médio da mão-de-obra por hora na indústria de transformação chinesa era de apenas US$ 0,60 em 2002, contra US$ 24 na Alemanha. Apesar disso, a Alemanha continua sendo o maior exportador mundial de manufaturados. Qual é o impacto da inclusão da Ásia num mundo com contingentes de mão-de-obra tão segmentados? Um aspecto é evidente: a razão pela qual os asiáticos exportam é o desejo de ampliarem seu consumo, ao menos no longo prazo. Se os chineses tivessem condições de produzir tudo mais barato em seu próprio país, seus exportadores perceberiam que os euros por eles auferidos de nada valeriam. É verdade que o governo chinês poderia comprar a moeda indesejada pelo mercado. Mas que sentido faria acumular cada vez mais gigantescas reservas monetárias se nada houvesse que valesse a pena adquirir com elas? Uma visão mais sofisticada proporia que os chineses querem, efetivamente, obter moeda estrangeira, mas para comprar petróleo e outros recursos naturais. Mas por que deveriam eles acreditar que os sauditas aceitariam euros em pagamento? A resposta é que os produtores de petróleo continuam a comprar coisas de países ricos que não podem ser fornecidas a preços mais baixos pelos chineses. Se a China viesse efetivamente a substituir todas as suas importações dos países de alta renda nos mercados mundiais, estes seriam levados automaticamente à auto-suficiência. Nenhuma política seria necessária. Mas uma proteção contra exportações da China faria os recursos nacionais acorrerem onde a China e a Índia já são competitivas e afastarem-se de onde esses dois países são menos competitivos. Seria insano prejudicar as atividades mais competitivas para estimular as menos competitivas. A visão segundo a qual os asiáticos simplesmente terminarão ficando mais competitivos em todos os setores é absurda. Qual é, então, o verdadeiro impacto do choque de oferta de mão-de-obra? A resposta, em suma, é que ele gera uma queda nos preços relativos mundiais de bens e serviços intensivos em mão-de-obra contra aqueles mais intensivos nos atualmente mais escassos recursos de capital (humano e físico) e terra. Isso tem duas conseqüências: mudanças nos termos de troca, ou seja, variações nos preços relativos de importações e exportações provenientes de países parceiros dos asiáticos; e mudanças na distribuição de renda nesses países, à medida que se ajustam seus preços de mão-de-obra, capital e terra. Os termos de troca chineses vêm deteriorando desde a abertura do país. Estimativas sugerem que os preços das exportações chinesas caíram cerca de 25% em relação aos preços de suas importações. Dessa maneira, as exportações chinesas beneficiam o restante do mundo. O fato de a China ter beneficiado o resto do mundo como um todo não significa que beneficiou cada país individualmente. Quanto mais similar for a vantagem comparativa de um país em relação à China, mais provável é que tal país seja um perdedor (e vice-versa). Na prática, os beneficiários são provavelmente produtores de matérias-primas industriais, especialmente combustíveis. Para os países de alta renda, o impacto da Ásia teve conseqüências favoráveis e desfavoráveis: o impacto reduz os preços dos bens e serviços importados de países em desenvolvimento (o que lhes é favorável), mas eleva o preço de commodities importadas (o que lhes é desfavorável). Em anos recentes, o efeito favorável prevaleceu sobre o desfavorável aos EUA e à Alemanha. Mas o Reino Unido foi, em larga medida, beneficiado por ser auto-suficiente em energia. Agora suponhamos que a ascensão da China tenha sido desfavorável para determinado país, por elevar os preços de suas importações em relação aos de suas exportações. O México parece ser um exemplo. Estaria o México em melhor condição se protegesse seus produtores contra importações da China? A resposta é negativa. As perdas são impostas pelo que aconteceu com os preços nos mercados mundiais. Taxar importações não poderá reverter esse prejuízo, a menos que o México detivesse um poder monopolista no comércio mundial. Normalmente, proteções infligem custos adicionais sobre a economia. É inútil chorar sobre o leite derramado. Para países de alta renda, quanto maiores os ganhos da queda dos preços mundiais de importações intensivas em mão-de-obra, maior será o desvio na distribuição interna de renda contra a mão-de-obra não especializada. Assim, o benefício também produz o desafio. Felizmente, o desafio deverá ser administrável. As forças tendentes a impor uma equalização salarial mundial por efeito do comércio são muito fracas. Apesar disso, o resultado final provavelmente será o uso de mão-de-obra não-especializada quase exclusivamente na produção de bens e serviços não-comercializáveis. Porém, desde que assegurado que controles sejam mantidos sobre a imigração de mão-de-obra não-especializada, isso não resulta, necessariamente, em desastre. Vale considerar outras medidas como redução de impostos sobre as rendas de baixos salários; subsídios a salários de trabalhadores não-especializados; e apoio à educação e ao treinamento. O mundo está sofrendo um enorme choque de oferta. Mas aos países de alta renda, o melhor conselho é: relaxem. A redistribuição interna de renda causada pelo comércio provavelmente será moderada. Acima de tudo, modificar deliberadamente as estruturas de produção para aproximá-las das vantagens comparativas asiáticas, por meio de protecionismo, seria loucura. Devemos no alegrar, em vez disso, com a capacidade do comércio ajudar pessoas a saírem da miséria, colherem benefícios e por promover os ajustes necessários.