Título: Gripe desestimula investimento em novos aviários no oeste de SC
Autor: Vanessa Jurgenfeld
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2006, Agronegócios, p. B11

Frigoríficos Grandes integrações frearam planos de ampliar o número de granjas na região

As indústrias de aves suspenderam temporariamente os investimentos em novos aviários no oeste de Santa Catarina, um dos principais pólos produtores do país. Em cidades como Xanxerê, Chapecó, Palmitos e São Miguel do Oeste, desde o início de março há poucos ou nenhum pedido de construção. Segundo as prefeituras locais, a queda das exportações de carne de frango em função da gripe aviária que avança na Europa, Ásia e África, fez as indústrias frearem os investimentos nas novas granjas para alojamento de matrizes e para frangos de corte. "Quem quiser terminar aviário que já começou a construir, pode terminar. Mas não vai ter pintinho para alojar. Estamos recomendando aos produtores que neste momento fiquem quietos e agüentem o estouro. Desde dezembro vínhamos alertando para não haver novos investimentos", diz o vice-presidente da Coopercentral Aurora e presidente da Cooperalfa, Mario Lanznaster. Em Xanxerê, município que recebia pelo menos dois pedidos por semana para construção de aviário, não há mais solicitações pelo menos desde fevereiro. Em Palmitos, desde o início do mês não há procura. Em São Miguel do Oeste também verifica-se retração. Em Chapecó, há 20 dias não aparecem mais pedidos. Algumas das 50 terraplanagens recém-executadas pela prefeitura também poderão não receber os aviários. Municípios do oeste catarinense vinham incentivando a construção de aviários na região. Davam ou parte da terraplanagem ou a terraplanagem integral para uma atividade importante na arrecadação de ICMS para o Estado. O vice-prefeito de Xanxerê, Enori Barbieri, também vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc), confirma que as indústrias suspenderam novos investimentos. Em Xanxerê, havia 15 terraplanagens em andamento que foram paralisadas neste início de ano. Apesar de o aviário ser gerido pelo integrado e ser ele quem obtém parte dos recursos para a construção, a decisão da suspensão é da indústria que, na maioria das vezes, é a avalista do produtor, concede pintos para a criação e demais insumos para que este produza exclusivamente para a integração. Entre as indústrias que suspenderam investimentos estão Diplomata, a Globoaves, Seara, Sadia, Perdigão e Aurora. À exceção de Aurora, Globoaves e Diplomata, nenhuma outra empresa se pronunciou ou confirmou as informações. Segundo o secretário de agricultura de São Miguel do Oeste, Ângelo Colassi, as indústrias não comunicaram oficialmente ao município o cancelamento dos investimentos. " Mas a gente percebe que deu uma esfriada", diz. O diretor da Globoaves, Roberto Kaefer, disse que a empresa concluiu, já no ano passado, que tinha um número suficiente de aviários para alojar matrizes na região de Xaxim e Chapecó. Agora, com a grande oferta de frango no mercado "há aviários sobrando", afirma. Para ele, no novo cenário "ninguém vai expandir". A Globoaves, por exemplo, deve reduzir o alojamento de matrizes em 20% no primeiro semestre deste ano. Já a Diplomata tinha meta de ampliar o abate em Xaxim, para até 250 mil aves/dia este semestre. Mas engavetou os planos e até reduziu o abate para 170 mil aves/dia, de acordo com Alfredo Kaefer, diretor da empresa. Para ampliar o abate, a integração teria de investir em mais 150 aviários na região de Xaxim. Mas isso não vai mais ocorrer. Pelo menos, enquanto durar a crise. Segundo o diretor da Diplomata, o dólar desvalorizado agrava a situação do setor que enfrenta queda de preços nas exportações por causa da gripe aviária. A freada dos investimentos das indústrias afeta os produtores de aves que queriam expandir seus negócios. O criador José Dupont diz que tinha intenção de fazer um novo aviário - hoje ele tem cinco aviários - mas com a situação, vai adiar os investimentos. A construção depende do apoio das indústrias porque elas financiam custos pesados de equipamentos e são avalistas dos integrados. "É preocupante", diz. O cancelamento chega junto com outras medidas das indústrias que devem diminuir a renda do produtor. Indústrias como Sadia e Perdigão estão ampliando o tempo de vazio sanitário das granjas de uma semana para entre 20 e 30 dias, segundo os produtores. Assim, o criador que tem dois galpões vai passar a produzir somente em um por determinação da indústria. Cada empresa está fazendo uma política própria, que pode incluir até mesmo revezamento de integrados. O produtor de perus, Eron Baldissera, já está há quase 120 dias sem alojar aves. Ele tem 15 aviários na região de Chapecó. "Talvez eu tenha sido o primeiro do setor a ficar sem produção. Mas hoje os meus 15 aviários estão parados", afirma. Baldissera foi o primeiro, mas não foi o único. Ele comenta que na região onde produz há 108 aviários no total, todos voltados à criação de perus. "Dos 108, somente um está ainda alojando. Os últimos foram dispensados há uma semana", observa. (Colaborou Alda do Amaral Rocha, de São Paulo)