Título: Se não houver crise, PIB cresce até 4%
Autor: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2006, Brasil, p. A2
Juros em queda, aumento do crédito de 20% a 25% este ano, reajuste de 16,67% do salário mínimo e crescimento do emprego são alguns dos elementos que, associados à política fiscal - que concentrará os gastos no primeiro semestre do ano - devem garantir um crescimento econômico de 4% neste exercício. As indicações de uma retomada mais vigorosa deverá ocorrer a partir de maio, e a tendência, portanto, é que, no auge da campanha eleitoral, por volta de agosto, a percepção de uma atividade econômica mais pujante estará embalando os movimentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim, tudo parece estar a favor da reeleição de Lula. A crise que volta a contaminar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, com denúncias cada dia mais fortes e constrangedoras, porém, vem assombrar e introduzir o imponderável nesse bom quadro econômico. A legislação que restringe boa parte dos gastos públicos em anos eleitorais ao primeiro semestre inverte a lógica da liberação de recursos, concentrando mais na realização de obras nos dois primeiros trimestres do ano. Soma-se a isso o fato de que, neste ano, a política fiscal será menos apertada que em 2005, quando o superávit primário , apesar da meta de 4,25% do PIB, chegou a 4,84% do PIB, num aperto intencional para compensar o aumento da taxa de juros naquele período. Agora, a intenção é perseguir mesmo os 4,25% de superávit. Isso tende a formar uma trajetória diferente de performance usual do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo dos próximos meses. A perspectiva de crescimento mais robusto, que ocorre, em geral, a partir do terceiro trimestre, se deslocaria para o segundo. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) corrobora essa perspectiva de recuperação da economia que está orientando economistas e políticos atentos ao processo eleitoral. Divulgada ontem, a ata diz: "Em adição ao comportamento da demanda agregada, a recuperação da oferta agregada no quarto trimestre de 2005 e indicadores recentes apontam para uma maior expansão da atividade em 2006. Olhando à frente, a expansão do nível de emprego e da renda, o crescimento do crédito e o processo de flexibilização da política monetária são fatores que impulsionarão a atividade ao longo dos próximos trimestres.". E acrescenta : "A esses fatores devem ser acrescidos os efeitos da expansão das transferências em função do novo valor do salário mínimo e dos impulsos fiscais ocorridos no último trimestre do ano passado e esperados para o primeiro semestre deste ano."
Situação de Palocci é um fator imponderável
Uma performance de crescimento de 4% este ano, mais parecida com o que ocorreu em 2004, quando o PIB teve variação de 4,94%, em comparação com 2,3% de crescimento no ano passado, e de 0,54% em 2003, encerraria o mandato de Lula com o país numa situação excepcionalmente melhor do que ele encontrou em janeiro de 2003. A economia mais sólida, menos vulnerável a mudanças de humor externo, em rota de crescimento, com um endividamento público melhor equacionado e, portanto, demandando menos mudanças de rumo da política econômica do que ainda prega o PT em seus documentos. Se reeleito, Lula teria, assim, como concentrar o segundo mandato não apenas na gestão da política macroeconômica, que entraria 2007 em bom estado, mas às reformas que ele mesmo já apontou que pretende tocar, em recente entrevista à revista "The Economist", enterrando de uma vez por todas os reclamos de guinada verbalizados pelo seu partido. Esse cenário, porém, necessitaria da presença de Palocci como avalista dos trabalhos da equipe econômica. Seus principais assessores temem sua saída do governo, torcem para que isso não aconteça e não vislumbram, nem em conversas com o espelho, um sucessor que tenha, mesmo fraco como está hoje, condições semelhantes de acesso ao presidente da República e um relacionamento, ainda que conflituoso, dentro do governo e no âmbito do PT. Comparam a situação atual com a do final do ano passado , quando também ferido por denúncias de corrupção durante sua gestão na prefeitura de Ribeirão Preto, entrou em confronto com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao tentar impor um aumento da meta de superávit primário para 5% do PIB, mas resistiu e permaneceu no cargo. Naquela ocasião, Lula flertou com a possibilidade de troca do ministro da Fazenda e chegou a sondar o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) para substituir Palocci. Ontem, Mercadante passou o dia desmentindo que tenha sido novamente chamado a ocupar a pasta da Fazenda. As condições objetivas para crescer 4% este ano, tanto do lado da demanda quanto do lado da oferta, estão dadas. O que pode fazer diferença, no curto prazo, é o destino de Palocci.