Título: PMDB faz prévias em clima de guerra entre governistas e pré-candidatos
Autor: Raquel Ulhôa
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2006, Política, p. A8

O ex-governador Anthony Garotinho e a ala pemedebista favorável à candidatura própria do PMDB à Presidência derrotaram os governistas e conseguiram manter para domingo a realização das prévias que irão escolher o candidato do partido ao Palácio do Planalto. Com a articulação decisiva de Garotinho para evitar o adiamento das prévias, a direção do PMDB transformou ontem uma reunião que havia sido convocada pelos governistas - contrários à realização das prévias - num ato público de apoio à candidatura própria e de repúdio ao grupo liderado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e pelo senador José Sarney (AP). A guerra entre as facções do PMDB a favor e contra a candidatura própria a presidente está longe de terminar. Os governistas fracassaram na tentativa de evitar as prévias, mas mobilizaram 12 diretórios estaduais que pediram ao presidente do partido, deputado Michel Temer (SP), a convocação de uma convenção nacional no dia 8 de abril, para tratar do lançamento ou não de candidatura própria. "Essa será a instância derradeira de decisão do partido", afirmou o presidente do Senado, minimizando a realização das prévias. "Nós priorizamos a convenção do dia 8", disse. Uma eventual vitória de Garotinho nas prévias preocupa os governistas e os candidatos a governador que dependem de alianças com partidos que estão na disputa presidencial. Se o Supremo Tribunal Federal (STF) mantiver a regra da verticalização para as próximas eleições, muitas alianças ficam inviabilizadas. Além disso, as pesquisas indicam que Garotinho poderia levar a decisão presidencial para o segundo turno. Se isso acontecer, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será forçado a negociar o apoio do PMDB diretamente com o ex-governador, que passaria a ser o interlocutor do governo, em vez do grupo liderado por Renan e Sarney. A divisão do PMDB foi exposta ontem num plenário lotado de militantes e claques organizadas, que, aos gritos, acusavam os governistas de "traição", "vigaristas", e de tentarem dar um "golpe". Na mesa, Temer reuniu Garotinho, o governador Germano Rigotto (RS) - o outro pré-candidato a presidente - e várias lideranças nacionais e estaduais, como o ex-governador Orestes Quércia (SP). O encontro foi um tiro no pé dos governistas. Renan, Sarney, o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB), e outros pemedebistas contrários à candidatura própria haviam colhido assinatura de cinco integrantes da Comissão Executiva Nacional para convocar uma reunião, cuja pauta seria a tentativa de adiar as prévias. A convocação foi entregue a Temer na quarta-feira. No entanto, sem conseguir os votos necessários para o adiamento das prévias (no mínimo nove dos 16 membros), os governistas desistiram de convocar a executiva. Às 23h30, entregaram a Temer o pedido de cancelamento da reunião. Mas o presidente do PMDB não só manteve, como capitalizou o encontro: lotou o plenário com pemedebistas favoráveis às prévias. "Eles correram da luta. Não tiveram coragem de encarar a militância", disse Garotinho aos militantes. O principal argumento dos governistas é o prejuízo que a candidatura própria causará nas eleições estaduais. A expectativa é que o STF mantenha a regra da verticalização para as eleições deste ano - o que obriga os partidos com chapa a presidente e vice a seguirem nos Estados a aliança feita nacionalmente. Garotinho acusa os governistas de usarem a verticalização apenas como um "pretexto" para evitar a candidatura própria. O ex-governador também contesta a possibilidade de uma convenção alterar o resultado das prévias. Na terça-feira, Garotinho havia imposto uma outra derrota aos governistas. Mobilizados por ele, deputados destituíram o então líder do partido na Câmara, Wilson Santiago (PB), que foi substituído por Valdemir Moka (MS). O ex-líder foi punido por ter assinado a convocação da executiva, a pedido do grupo de Renan. Além de perder o voto de Santiago na executiva, os governistas também esbarraram em dois recuos. O deputado Henrique Alves (RN), tido por eles como voto contrário às prévias, acabou tirando seu apoio. E eles contavam com o voto do ministro da Saúde, deputado licenciado Saraiva Felipe, que se licenciaria do ministério para votar. Mas o ministro acabou não concordando.