Título: Entrevista
Autor: Daniela Chiaretti
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2006, EU & FIM DE SEMANA, p. 4
Valor: Como percebia o tempo passar no cativeiro? Você menciona um relógio no quarto, mas diz que não funcionava. Simona Torretta: Só funcionava o ponteiro dos segundos. Era a única coisa no quarto de alvenaria onde passamos os dias do seqüestro, e dois colchonetes. Os dias eram longos e a tensão não passava nunca. As janelas, altas, estavam cobertas por cortinas e papelões. Não podíamos fazer nada, só seguíamos ordens. E nem nos permitíamos fazer nada, tínhamos medo.
Valor: Qual era a rotina? Os seqüestradores falavam sobre mulheres também encarceradas, "e isso nos assustava, porque temíamos represálias", diz Simona (na foto, homem atrás das grades, na prisão de Abu Ghraib) Simona: Passamos todo o tempo só nós duas, no quarto. Nosso desnorteamento era total. A única coisa diferente era quando nos traziam comida ou durante os interrogatórios.
Valor: Como eram os interrogatórios? Simona: No primeiro, no dia do seqüestro, queriam saber tudo, o que fazíamos no Iraque, qual era nosso trabalho, o orçamento da entidade, se recebíamos dinheiro do governo italiano. O tom era muito agressivo. Eles não sabiam nada de nós, só que éramos italianas e que trabalhávamos pela solidariedade internacional.
Valor: Havia um tradutor? Simona: Com um inglês não muito bom, mas dava para entender. Acima de tudo, queriam saber se colaborávamos com os americanos. Fomos firmes em dizer que não, que não recebíamos nenhum recurso do governo italiano, que a nossa posição era contra a guerra.
Valor: Os seqüestradores contavam algo sobre a situação de vocês? Simona: Nada. Só uma vez disseram que um homem tinha feito um apelo na televisão. Ficamos imaginando se tinha sido o pai de Simona ou o presidente da nossa entidade. Quando voltamos à Itália e soubemos de todas as manifestações, ficamos surpresas. Tanta gente sabia de nós, gente do mundo todo.
Valor: Quando a levaram a primeira vez ao banheiro, você contou vinte passos até o quarto. Pensava em fugir? Simona: Não, só queria entender o espaço onde estávamos, até porque nos primeiros dias tinha a venda nos olhos. Mas, com o tempo, você começa a se sentir parte daquela dimensão e quer entender como pode sair. E acaba se agarrando a alguns sinais positivos, que te fazem ter esperança.
Valor: Quais sinais? Simona: Bastava que nos trouxessem um almoço um pouco melhor ou a pasta de dentes. Se bem que às vezes eu achava que era só uma maneira de nos manterem boazinhas.
Valor: Sempre trataram vocês, digamos, bem? Simona: Não posso dizer que não. Nunca faltou comida, nunca encostaram a mão em nós. Uma vez nos trouxeram arroz, frango, azeitonas, frutas e um doce com mel e pistache. Simona me disse, rindo: "Hoje o serviço é cinco estrelas!" Surreal: estávamos ali, no escuro, seqüestradas, talvez nos decapitassem, mas o serviço era excelente. Claro, com o terror de ser assassinada sempre presente.
Valor: Pensava que a vida podia acabar ali? Simona: Desde o primeiro momento. Eu não tinha esperanças.
Valor: O que vocês faziam naqueles dias? Simona: Falava com Simona. No começo não estava claro para nós o que podíamos e o que não podíamos fazer, se podíamos falar ou não. Um dia, nos deram uns livrinhos sobre o Islã para ler, em inglês.
Valor: Havia mulheres? Simona: Nenhuma. Nem crianças.
Valor: Sabe quem as seqüestrou? Simona: Não, são muitos os grupos que se movimentam hoje no Iraque. Nos disseram que era um movimento nascido para combater as forças de ocupação.
Valor: Chegou a ver o rosto deles? Simona: Não. Olhávamos sempre para baixo, para não correr riscos. Reconhecia o que vinha nos trazer comida pelos pés gorduchos, que não cabiam nas suas sandálias de plástico.
Valor: Quando você entendeu que as coisas terminariam bem? Simona: Não entendi. Um dia, abriram a porta e falaram: "Coloquem estas roupas que vamos libertar vocês".
Valor: Foi alívio imediato? Simona: Não. Você não tem certeza enquanto as coisas não acontecem. Só vivi a sensação de liberdade no aeroporto de Bagdá.
Valor: Demorou para subirem no avião? Simona: Da manhã até a tarde. Fomos libertadas na frente de uma mesquita sunita, em Bagdá, e ali revi finalmente Raad e Mahnaz. Havia alguém filmando e depois a cena foi exibida em todo o mundo.
Valor: Como foi sua vida daí em diante? Simona: Comecei a participar de conferências em escolas e universidades, levando meu testemunho dos efeitos das guerras sobre o povo iraquiano. Tento trazer uma imagem do Iraque um pouco mais complexa, ressalto o esforço de iraquianos em fazer um trabalho positivo. E me dediquei a escrever o livro. É algo muito simples, em que pretendo dar outra leitura sobre o Iraque, não só a situação anômala de um país em guerra.
Valor: Qual a repercussão? Simona: O livro faz emergir um país que pouco se conhece, da guerra que atinge diariamente as famílias. E, claro, existe a curiosidade pelos dias do seqüestro, que eu contextualizo dentro da questão iraquiana. Sem a guerra, o seqüestro não se explica.
Valor: Você escreve sem julgar. As pessoas a entendem? Simona: Procurei descrever as coisas pelo que vi e conheci. Deixo aos outros os juízos de valor. Mas a opinião geral é que naquele país existe um nível cultural não muito elevado, não se pensa nos iraquianos como interlocutores, com quem se pode fazer um trabalho de igual para igual. Vive-se o "approach" da beneficência, com o qual não concordo. O Iraque era um país rico, qualificado, reconhecido como um lugar que sediava as melhores universidades do mundo árabe. Sempre foi uma sociedade capaz de se organizar. Não vou esquecer jamais o caso de Fallujah, a explosão de solidariedade que aconteceu em seguida ao ataque americano, que se espalhou de norte a sul e contradiz a idéia de que o Iraque é um país dividido. Cada um corria levando o que podia, de comida a sangue.
Valor: As pessoas souberam dos eventos em Fallujah e Najaf com a intensidade que você descreve? Simona: Não. A guerra é um acontecimento midiático mostrado sempre da mesma forma. Para quem está de fora, aquelas são cidades anônimas. Para mim, elas têm significado, vivem lá algumas pessoas especiais. A situação piorou porque em Bagdá há sempre menos jornalistas. É o mesmo com as ONGs, foram todas para Amã. Nós também.
Valor: O que você está fazendo agora? Simona: Atuo em diversos projetos. Hoje, existe o dobro das cadeias do tempo de Saddam. Trabalhamos na formação de uma rede, junto com ONGs locais, a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, que monitore o que ocorre dentro das prisões e dê assistência psicológica a detentos e familiares.
Valor: Os seqüestradores falavam a vocês sobre a libertação das iraquianas mantidas prisioneiras, algo que os EUA sempre negaram. Simona: E isso nos assustava, porque temíamos represálias. É algo confirmado em relatos das Nações Unidas, da Anistia Internacional. Há mulheres presas e também menores, e sabemos que são submetidos a abusos. Mas nem a Cruz Vermelha Internacional conseguiu, até hoje, ter acesso a qualquer cadeia administrada pelas forças da coalizão ou pela polícia iraquiana. Nossas fontes são ex-detentos ou soldados americanos. É como se existisse o desejo de golpear e humilhar toda a sociedade iraquiana. Porque lá a mulher que sofre abusos é considerada desonrada para sempre.
Valor: Como você vê a notícia do fechamento de Abu Ghraib? Simona: A prisão será fechada por razões de segurança. Vão levar os presos para outro cárcere, construído na maior base militar de Bagdá. Não vai mudar muito.
Valor: E a reconstrução da Biblioteca? Simona: É um dos nossos projetos mais bonitos. A Biblioteca Nacional de Bagdá tinha um patrimônio histórico-cultural importantíssimo. Nunca entendi porque os americanos não impediram os saques. Muitos livros e documentos importantes se perderam, outro tanto foi destruído pelos incêndios. Começamos a limpar, reorganizar. Agora estão em Florença cinco bibliotecários iraquianos, fazendo um curso de restauração. O edifício está voltando a ser lindo como no passado.
Valor: Você conheceu Sergio Vieira de Mello? Simona: Pessoalmente, não. Ele era uma referência para todos. Entre os 17 que morreram naquele atentado havia um amigo meu, que trabalhava na Unicef. As Nações Unidas tinham uma posição política muito ambígua no início, até porque não haviam aceitado a guerra.
Valor: Conhece os reféns hoje seqüestrados? Simona: Conhecia os ativistas da Christian Peacemaker Team (o americano Tom Fox, 54 anos, refém desde o final de 2005, foi encontrado morto na semana passada). Eles concentraram seus esforços na denúncia das torturas nas prisões. São a voz do povo americano contrária à guerra e à política de Bush. Mas existem vários neste momento, para não falar nos seqüestrados iraquianos, dos quais não se sabe nada. Os raptos atingem até crianças. Há alguns meses, aconteceu com a filha de um amigo, de 4 anos. Ela foi devolvida à família depois de um mês de negociações e de ele entregar todo o dinheiro que tinha.
Valor: No livro, você conta a saga de um pai que trabalhava ao lado da filha doente para pagar sua operação na Alemanha. Sabe deles? Simona: A última vez que o vi, ele me deu um quadro com a inscrição "Que Alá proteja esta casa". Nunca mais tive notícias. Perdi muitas pessoas desde que saí do Iraque. É a maior dor que carrego.
Valor: Você tem contato com Raad, Mahnaz, Simona Pari? Simona: Nos escrevemos muito. Espero visitar Raad logo. Vejo Mahnaz com freqüência. Sempre fui próxima a Simona, e agora ainda mais.
Valor: Como é a vida em Bagdá hoje? Simona: A situação dos serviços, de trabalho e de insegurança é a mesma. Os atentados atingem os civis e impedem a serenidade. Muitos não levam mais as crianças à escola com medo dos raptos ou porque as crianças têm que ajudar a engordar a renda. O Iraque exporta menos petróleo do que nos anos do embargo, falta gasolina. Não há trabalho, luz e água são raros. Sem falar da contaminação ambiental provocada pelos bombardeios. A situação geral é de esgotamento. Há ainda a humilhação das torturas nas cadeias. Em uma sociedade em que a noção de coletivo é muito mais forte do que na nossa, humilhar uma pessoa publicamente faz com que toda a população se sinta assim. Este é o pano de fundo, mas há também muitos iraquianos tentando reconstruir o país, um esforço que tem muito menos visibilidade do que o terror que se espalha por todo lado.
Valor: As tropas de ocupação deveriam sair imediatamente? Simona: Sim, não vão resolver os problemas do Iraque. É a sociedade que deve pensar o futuro do país. O governo italiano diz que nossas tropas sairão logo. Torço para que isso aconteça. Mas não acho que com a saída das tropas o país se acalmará rapidamente.
Valor: Como você imagina o futuro do país? Simona: A situação degenerou. Hoje é uma população de que levaram embora o futuro. A eliminação do terrorismo dependerá da capacidade dos iraquianos e de quem levará o país adiante. Houve um êxodo de intelectuais. Como será a composição dessa sociedade? Agora, a maior tarefa é reintegrar no projeto político os sunitas, e recriar a união nacional. Desde o início houve uma política dirigida para a divisão das etnias, quando os EUA começaram a perseguição aos sunitas, a famosa "debaathtificação", contra os seguidores do partido de Saddam. Essa campanha perseguiu todos os sunitas, não somente aqueles ligados ao Baath, e privilegiou a tomada do poder por curdos e xiitas. Eu não sentia esse conflito antes. Os iraquianos se sentiam simplesmente iraquianos.
Valor: E o seu futuro? Simona: Não sou muito de planejar, mas vou continuar a trabalhar com o Iraque. E espero voltar lá um dia.