Título: Outro olhar sobre o Iraque
Autor: Daniela Chiaretti
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2006, EU & FIM DE SEMANA, p. 4
Capa A guerra completa três anos e continuaria um massacre de anônimos não fosse o livro da pacifista Simona Torretta. Em entrevista, ela descreve seus 21 dias de seqüestro sempre levando em conta o contexto político do país onde morou por oito anos. Não há ju
"Eles têm o rosto descoberto. Parecem usar uniforme, calças e camisetas negras. Mas, quando entram, entendo imediatamente: estes homens vieram nos seqüestrar." Poderia ser o início de um thriller, mas o trecho na contracapa de "Otto Anni e 21 Giorni", escrito pela italiana Simona Torretta, é vida real. Aconteceu com ela, aos 29 anos, em Bagdá, onde viveu o título da obra - 8 anos em um país desnorteado pelos conflitos e 21 dias seqüestrada. Depois de negociações do governo italiano - jamais explicadas -, ela voltou à cidade natal, Roma, e mergulhou num impressionante relato do país que conheceu antes, durante e depois da guerra. Até chegar aos dias em que ficou trancada em um quarto, em algum lugar do Iraque, esperando a morte chegar. Foram duas as Simonas raptadas em Bagdá em 7 de setembro de 2004. Ambas italianas, mesma idade, pacifistas da mesma ONG e amigas: Torretta, chefe da missão no Iraque de Un Ponte Per... (Uma ponte para...), entidade com 15 anos de atividades no país, e Simona Pari, com trabalhos de cooperação no Afeganistão, Kosovo, Albânia e Montenegro, e, naquele momento, encarregada de projetos de educação no Iraque. Os seqüestradores levaram também dois colegas iraquianos: Raad Alì Aziz, um jovem engenheiro apaixonado por astronomia ("durante a guerra, Raad era provavelmente o único iraquiano que observava o céu só para verificar a posição exata dos astros", descreve Torretta) que trabalhava na ONG havia dois anos, e Mahnaz Bassam, voluntária da Intersos, uma ONG vizinha. Tudo aconteceu rápido. Uma dúzia de homens armados entrou na sede da ONG, que vivia de portas abertas a estrangeiros e nativos. Simona Torretta acabara de tomar um café com Mahnaz e voltava ao relatório do orçamento; Simona Pari fechava uma campanha de educação para as escolas de Bagdá e Raad estava por ali. Os seqüestradores mandaram todo mundo sentar no chão e escolheram os quatro reféns. "Quando saímos, vi nossos colegas iraquianos sentados também, o olhar fixo no chão. Senti que não ia vê-los nunca mais", conta Torretta. O comboio de jipes atravessou os bloqueios sem ser parado. Simona tentou se ajeitar no carro, sem conseguir - o espaço estava lotado de munição e granadas. "Não queria interromper minha vida assim, sem poder construir uma família, ter crianças. Tentei ficar calma. Se era a minha hora, não havia nada a fazer. Tinha medo de sofrer." O seqüestro foi imprevisto, mas não era improvável. O primeiro capítulo, "Gli spaghetti di Enzo", leva o leitor a pensar numa tarde feliz entre italianos, regada a "pasta e vino". Esquece-se que o cenário é a Bagdá ocupada, com atentados diários, a sede da ONU explodida, a morte de Sergio Vieira de Mello completando um ano. Enzo Baldoni, 56 anos, jornalista, apareceu um dia no caos da ONG em Bagdá. Conheceu os voluntários e se apressou a fazer o almoço - "pasta al pomodoro", que todos comiam todos os dias por falta de outra coisa. Conheceu o palestino Ghareeb, 36 anos, que lhe serviu de intérprete e seguiram para Najaf , junto com a Cruz Vermelha Italiana. Baldoni chegou entusiasmado, decidido a viajar de novo. "Enzo e Ghareeb partiram no dia seguinte, mas não voltaram", escreve Simona. No retorno a Bagdá, foram atacados. O palestino foi morto imediatamente. A notícia da morte de Enzo chegou dias depois. O assassinato do jornalista era o sinal de que ser agente humanitário no Iraque não garantia mais imunidade. A sede de Un Ponte Per..., em Roma, sugeriu a transferência para um lugar seguro - Amã, na Jordânia. Mas, em 2 de setembro, um míssil destruiu parte do escritório e atrasou a saída das moças. Simona Torretta nunca viveu uma vida ordinária. Conheceu o Iraque com a idade em que jovens vão a baladas, aos 19. Estudava belas-artes em Roma e embarcou em uma viagem para participar do Festival da Babilônia, uma reunião anual das artes árabes. "A idéia de visitar uma das mais antigas cidades me entusiasmava. Não sabia, porém, que esta viagem mudaria radicalmente minha vida", conta. A imagem pirotécnica do Iraque, das cenas da guerra de 1991, havia marcado sua adolescência. O país que ela conheceu já estava mutilado. Vinha de uma guerra de oito anos com o Irã, da primeira guerra do Golfo, do embargo internacional que estrangulou a vida da população. Os iraquianos, empobrecidos, assistiam resignados à megalomania de Saddam Hussein, que continuava erguendo palácios enquanto a sociedade sonhava com água, luz, remédios e escolas. Mas as contradições iraquianas bateram forte em Simona Torretta. Ela se aproximou de Un Ponte Per... e em 1998 saiu em missão no Iraque. "Parti sem um momento de hesitação", diz. Longe do relato míope do jornalismo confinado à visão da guerra pela varanda dos hotéis, o livro narra o Iraque de antes, com sua capital cheia de mercados, universidades que pareciam campus anglo-saxões, museus e galerias de arte, chegando à perplexidade diante do cotidiano de escombros e terror. Em março de 2003, ela estava lá, em Bagdá, debaixo das bombas. Abrigou-se em um hotel com amigos "ongueiros" - entre eles, a britânica Margaret Hassan, diretora da Care International, seqüestrada e morta em novembro de 2004. A enorme expectativa popular de, finalmente, ter um futuro desabou pouco depois da estátua do ditador. A cidade logo chegou à anarquia. Os saques não poupavam nada: camas, remédios, aparelhos de ar-condicionado. Dos 2 milhões de livros da Biblioteca Nacional, salvou-se a metade. Edições antigas das "Mil e Uma Noites", registros do período otomano, arquivos da era Saddam, tudo se perdeu. Escrito em primeira pessoa, o livro de Simona humaniza as estatísticas das perdas que já não sensibilizam ninguém e joga sentimentos em uma terra de onde só se lêem notícias de selvageria. Uma hora é o drama de Waleed Mohammed, 5 anos, único sobrevivente de uma família de 23 pessoas depois do massacre em Fallujah, a cidade dos cem minaretes, bombardeada pelos EUA em represália à morte de quatro funcionários da empresa Blackwater. Em outro momento, o leitor se aproxima vertiginosamente dos bombardeios. Como o de 2 de abril de 2003, quando Simona ficou bloqueada por uma nuvem gigantesca provocada pela explosão de seis mísseis em plena manhã, no mercado de Bagdá. Ela se viu diante de uma cratera que engoliu carros e hospitais, gente doente, gente que visitava seus doentes, gente que comprava tomate. O pano de fundo do país que seduziu a autora se intercala com o relato angustiante do seqüestro. Quando o jipe pára, os reféns são conduzidos a uma sala e obrigados a sentar de frente para a parede. Simona acha que vai morrer ali. Amarram seus braços, tampam-lhes a boca com fita crepe, vendam seus olhos. As Simonas são colocadas num bagageiro, cobertas com um telão e levadas para uma longa viagem. Passarão o resto do dia sendo interrogadas e ameaçadas. "Diga a verdade ou a matamos", escutam do suposto chefe. "Um homem nos manda dormir, sem tirar nossas vendas. Eu só espero que Simona esteja ali, perto de mim", escreve Torretta. Depois, as vendas são substituídas por véus grossos, que devem usar sempre. A rotina é de medo - três vezes ao dia, entra um homem que traz comida e água, interrogatórios tensos, nenhuma visão da luz do sol. Os únicos ruídos são das preces dos seqüestradores e do som dos celulares que tocam à noite. Quando tudo silencia, elas andam para cima e para baixo no quarto. Ou conversam, rezam e choram. Assim passam as semanas, sem que saibam nada do que acontece e do que pode acontecer. O dia da libertação é 28 de setembro. São avisadas de que serão soltas e que devem vestir um véu. Não vêem nada e ninguém as vê. Viajam por muito tempo e, na primeira parada, reconhecem as vozes de Raad e Mahnaz. O carro pára em Bagdá. De outro veículo, aparece Maurizio Scelli, presidente da Cruz Vermelha Italiana. São filmadas e colocadas em um táxi para o aeroporto. Só então explodem em euforia. Antes de o avião partir, são apresentadas a um homem simpático, que tenta fazer com que falem com os pais na Itália, mas as linhas estão ocupadas. "Pergunto se ele virá conosco e ele me diz que irá a Roma mais tarde. É a última vez que o vejo." O homem é Nicola Calipari, do serviço secreto italiano, que seria morto a tiros, em março de 2005, pelas tropas americanas, em condições jamais esclarecidas, no final do seqüestro da jornalista Giuliana Sgregna. Soldado americano monta guarda em palácio destruído: Simona fala do Iraque de antes, da Bagdá e seus mercados, museus, universidades Nas 192 páginas, Simona evita fazer juízos de valor, mas no final dá uma sutil alfinetada: "O avião aterrissa em Ciampino. As portas se abrem e o presidente do Conselho, Silvio Berlusconi, aparece antes da minha mãe. De repente, ele está na minha frente, me abraçando". O reencontro com as famílias segue-se ao contato com a vida lá fora - logo elas se dão conta da grande mobilização que o caso provocou, ficam sabendo dos dois americanos decapitados enquanto estavam presas, percebem que não trouxeram nem a escova de dentes. Ficou tudo em Bagdá. Três anos depois do fim dos bombardeios, o Iraque continua vivendo o isolamento e o medo, escreve Simona. Mas solidariedade é vírus contagioso. Simona Pari está no Sudão, trabalhando para a ONG Oxfam. Raad foi viver com a família na Suíça e segue buscando estrelas enquanto difunde uma imagem mais positiva de seu país. Mahnaz trabalha em uma agência de notícias em Roma, traduzindo textos dos países árabes. Simona Torretta vive em Roma e continua trabalhando pelo Iraque. Passou oito meses escrevendo o livro (lançado no final de 2005, na Itália, pela Rizzoli), enquanto viu, impotente, a morte de amigos e o sumiço de colegas. Estima-se que mais de 400 estrangeiros (inclusive o engenheiro brasileiro João José Vasconcellos Jr.) e milhares de iraquianos foram raptados desde a queda de Saddam. Pelo menos 40 estrangeiros foram mortos. "As luas de Bagdá são diferentes das de Roma. Parecem maiores, mais próximas", prefacia Simona, nostálgica, no livro em que fala da terra que diz amar, apesar de tudo. "Há um ano de meu sequestro, penso naquelas grandes pontes sobre o Tigre, todas diferentes umas das outras. A antiga Mesopotâmia está sempre ali." E lembra, no epílogo: "Hoje estou livre. Mas muitas pessoas, para nós sem rosto nem nome, em um dia qualquer destes, não voltaram para casa, em Bagdá". Por telefone, na sede de Un Ponte Per. - que deixa quem aguarda na linha ouvindo "What a Wonderful World" -, Simona deu esta entrevista ao Valor.