Título: Parte da indústria já demite para cortar custo
Autor: Denise Neumann
Fonte: Valor Econômico, 20/03/2006, Brasil, p. A3
A valorização do real já provoca danos no mercado de trabalho brasileiro. O nível de emprego em alguns setores exportadores intensivos em mão-de-obra, como calçados e móveis, já caiu mais de 10% nos doze meses terminados em janeiro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, com a persistência do câmbio no patamar próximo a R$ 2,10, segundo associações empresariais, não há perspectiva de melhoras nesse cenário.
A demissão, ainda que cara, vem ocorrendo em algumas empresas como forma de cortar custos e amenizar as perdas na rentabilidade das exportações. Domingos Sávio Rigoni, presidente da Abimóvel e dono da Movelar, conta que 40% das exportações de móveis do Brasil vão para os Estados Unidos. São produtos mais elaborados, que demandam muitas horas de trabalho. Por isso, a mão-de-obra representa cerca de 20% do custo total de uma peça dessas. Nas peças mais simples - destinadas ao mercado doméstico -, esse percentual cai para algo entre 8% e 15%, explica o empresário.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, a indústria de madeira e mobiliário, apresentou um saldo negativo entre contratações e demissões de nada menos do que 22,4 mil vagas com carteira assinada entre janeiro deste ano e o mesmo mês de 2005. Pelos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o recuo do nível de ocupação foi de 10,4%. Ao mesmo tempo, a produção do setor caiu, mas em menor magnitude: 5%. No mesmo período, a folha de pagamento subiu 2,4%, indicando aumento de salários.
"As empresas do setor não podem deixar de cumprir contratos e, com um real tão valorizado, a saída é demitir", diz Rigoni. Nem mesmo na compra de matéria-prima o setor é beneficiado, pois utiliza produtos nacionais. Com o câmbio no patamar atual, ele prevê que as exportações caiam entre 15% e 20% nesse ano. "Não vale a pena demitir um funcionário, mas quando a empresa percebe que a situação não vai melhorar nos próximos 3, 4 meses, não há como segurar", avalia.
Outros ramos da indústria que sofreram bastante foram os de vestuário e calçados. Segundo o IBGE, a ocupação nesses setores teve queda de 2,4% e 12,5%, respectivamente. "São indústrias com utilização intensiva da mão-de-obra", explica o economista Marcelo de Ávila, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele lembra que os encargos pagos no momento em que um funcionário é demitido são altos. "Se a empresa manda embora, é porque a situação está realmente difícil", comenta.
Em setores mais intensivos em capital, como aqueles que produzem máquinas e equipamentos eletrônicos, a situação é outra. "Não há muito o que demitir. Basta diminuir o número de horas trabalhadas, desligar uma máquina e pronto", afirma Ávila. Além do que as empresas ainda estão conseguindo manter as exportações em bons níveis. Nesse ramo, o emprego cresceu 3,69% nos 12 meses encerrados em janeiro. A produção saltou 12,7%. Paulo Butori, presidente do Sindipeças, entidade que representa as empresas produtoras de componentes para veículos, explica que a valorização do real tem afetado de forma muito distinta essa cadeia produtiva. Para aqueles que compram mais fora do país, como o setor de eletrônicos, o câmbio em alta é benéfico. No entanto, para a cadeia da borracha e plástico, que tem matérias-primas nacionais, a situação é complicada. O nível de ocupação caiu 2,8% e a produção cedeu 0,7%. Também pesa o fato de que os trabalhadores das autopeças têm obtido aumento acima da inflação nos últimos anos. "A participação da mão-de-obra nos custos do nosso ramo está em torno de 20% a 25%. Qualquer reajuste já pressiona", afirma Butori. No entanto, esse percentual já foi maior. Há 15 anos, ele era de 40%. Mas, explica o presidente, com a alta nos insumos, os gastos com matéria-prima estão pesando cada vez mais.