Título: Salário em dólar sobe 27% em 12 meses
Autor: Denise Neumann
Fonte: Valor Econômico, 20/03/2006, Brasil, p. A3

Conjuntura Ganhos de produtividade foram anulados pelos efeitos da valorização cambial

Os ganhos de produtividade obtidos pela indústria brasileira foram incapazes de amainar minimamente o aumento do custo salarial provocado pela valorização do real. Quando medido em dólar, o custo do trabalho por unidade produzida - um automóvel, um sapato, uma caixa de fósforo - subiu 27% nos últimos 12 meses. Ponderada pela produtividade, a relação entre câmbio e salário pago na indústria caiu, na mesma comparação, 26%, segundo séries calculadas pelo Banco Central. Essa queda indica que a valorização do câmbio anulou a vantagem comparativa que o país poderia ter obtido com o aumento no volume de produção por funcionário. Pelos cálculos do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a produtividade do trabalho na indústria - dada pela divisão entre a produção física e as horas trabalhadas no setor - cresceu 2,3% em 2005. Os indicadores do BC que relacionam câmbio e salários são uma medida direta da evolução da margem de lucro do exportador, argumenta o diretor-executivo Iedi, Júlio Sérgio Gomes de Almeida. A evolução de outros custos (como aço, borracha, energia elétrica etc) também interfere, bem como a menor ou maior capacidade de cada setor repassar preços no mercado externo. Na média, os preços de exportação de manufaturados subiram 11 % no ano passado, segundo dados da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). "Mas mesmo assim, os dados apontam para uma queda muito forte do ganho do exportador", observa Gomes de Almeida. O custo unitário do trabalho medido em dólares tem crescido desde o final de 2002. Antes, entre 1999 e 2002, a indústria acumulou - com ajuda da desvalorização do real - uma queda expressiva no valor dos salários medidos em dólar. A economia chegou a 50%. Desde então, ela foi toda devolvida e o custo salarial voltou a subir, acumulando 48% de alta na série do BC, que sempre considera uma média móvel de 12 meses. Mesmo em 2004, quando os ganhos de produtividade foram expressivos - 6,1% segundo o Iedi - ainda assim o comportamento do câmbio anulou as vantagens comparativas que os fabricantes nacionais poderiam ter em relação aos seus concorrentes externos, pois o custo salarial subiu 13,5% naquele ano, segundo a série calculada pelo BC. "O aumento dos salários em dólar afeta principalmente os setores que exportam e são intensivos em trabalho", observa o economista André Nassif, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os salários domésticos são pagos em reais, mas uma empresa com receita fortemente exportadora precisa hoje um volume maior de dólares para pagar sua folha de salários. Há um ano, o dólar valia R$ 2,65 e para pagar um salário de R$ 1,5 mil, uma empresa desembolsava cerca de US$ 570. Hoje, o mesmo salário custa, para o empregador, US$ 700. Além disso, na grande maioria dos setores industriais, os salários foram corrigidos pela inflação e receberam aumento real, elevando ainda mais o custo em dólares. Quanto mais intensivo em mão-de-obra, maior o impacto dos salários sobre a margem do exportador, argumenta Gomes de Almeida. "As indústrias, têxtil, de vestuário e de calçados estão entre as mais afetadas", diz. "Quando o setor é intensivo em tecnologia, mesmo que o salário médio dos seus funcionários seja mais elevado, o setor tende a ter ganhos de produtividade que compensam as diferenças salariais", acrescenta Nassif.