Título: Espaço para elevar despesas com inversões é limitado
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 20/03/2006, Brasil, p. A4
Depois de gastar apenas R$ 10,3 bilhões com investimentos no ano passado, os analistas esperam um aumento dessas despesas por parte da União em 2006, mas sem apostar numa aceleração muito forte. Se quiser de fato cumprir a meta de superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB), a União pode investir algo como R$ 14 bilhões a R$ 15 bilhões, avalia a professor Margarida Gutierrez, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os analistas dizem que o governo não vai fazer em 2006 uma economia para pagar juros tão elevada quanto no ano passado, quando o superávit ficou em 4,84% do PIB, mas não acreditam que ela seja inferior a 4,25% do PIB. O economista Fábio Giambiagi, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não está assustado com a aceleração de gastos de investimentos no começo do ano, pelo menos por enquanto. Segundo ele, o governo deve investir mais em 2006, com uma distribuição das despesas mais regular ao longo do tempo. Giambiagi acredita que os investimentos vão ficar entre R$ 13 bilhões e R$ 14 bilhões neste ano. Seria um salto de até 35% em relação ao que foi pago em 2005, mas é um valor muito baixo, na casa de 0,7% do PIB. Para comparar: apenas com os benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) o governo deve gastar 7,9% do PIB este ano. O aumento das despesas com o INSS, aliás, é um dos fatores que limitam uma maior expansão dos investimentos, dizem analistas. O significativo reajuste do salário mínimo, que impacta dois terços das cerca de 23 milhões de aposentadorias pagas pela instituição, vai elevar em 0,3% do PIB os gastos com os benefícios. Com isso, ainda que o superávit primário deva cair de 4,84% do PIB em 2005 para 4,25% do PIB neste ano, não há muito espaço para elevar investimentos, já que mais da metade dessa gordura deverá ser gasta com o INSS. Como ninguém duvida do compromisso do governo Lula com a política de superávits primários elevados, os gastos com investimentos devem bater em R$ 15 bilhões na melhor das hipóteses. Para Giambiagi, a situação começaria a ser vista com preocupação se as despesas para esse fim superassem em muito o nível de R$ 14 bilhões e os gastos correntes (com pessoal, programas como o Bolsa-Família e o custeio da máquina pública) também subissem com força. Mas esse não é o cenário mais provável. A expectativa é de que o governo gaste bem mais na primeira metade deste ano do que no primeiro semestre de 2005, mas sem colocar em risco o superávit primário. Os analistas ressaltam ainda que a qualidade do ajuste fiscal vai seguir ruim. Para Margarida, a tendência é de que os investimentos continuem a ser feitos a toque de caixa, com prioridade para os que tenham mais visibilidade eleitoral, como operação tapa-buraco. (SL)