Título: PMDB faz consulta sem valor jurídico e Garotinho tem vitória contestada
Autor: César Felício, Thiago Vitale Jayme, Heloisa Magalh
Fonte: Valor Econômico, 20/03/2006, Política, p. A5

Rebaixada para uma simples consulta informal ao partido, graças à liminar cancelando os efeitos do evento, concedida e mantida pelo presidente do STJ, Edson Vidigal, a prévia do PMDB realizada ontem fragilizou a candidatura própria do partido à presidência. O resultado da consulta, nos Estados em que a votação ocorreu, aprofundou o caos. Com 98% dos votos apurados, não havia clareza sobre a preferência partidária . Na média ponderada, observando a regra estipulada pelos pemedebistas, com pesos diferentes para os Estados, Anthony Garotinho tinha 49,3% dos votos ponderados contra 38,2% de Germano Rigotto, em um cálculo que não discrimina brancos e nulos e nem expurga abstenções. Deste modo, ficou como vencedor da consulta. Mas o governador gaúcho superava o adversário nos votos absolutos, com 7.574 eleitores contra 4.910 do ex-governador do Rio. Garotinho não festejou o resultado: "É o regulamento. Quem ganhou foi o PMDB", limitou-se a dizer. O presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), um dos articuladores contra as prévias, disse não acreditar no respaldo político de uma consulta informal . "A consulta está completamente comprometida", disse . "Até as regras postas para a consulta, com pesos entre os estados, a colocam em cheque pois distorcem o equilíbrio federativo. Temos de respeitar nossa força estadual. Há locais onde o partido se coligaria com o PT e outros onde haveria aliança com PSDB ou PFL", disse . Sob argumento de que se tratava de um ato ilegal, dirigentes governistas ganharam respaldo para suspender a reunião e impedir os pemedebistas de votarem em sete Estados, como o Maranhão, terra natal do ex-presidente e senador José Sarney (AP) e do próprio Vidigal, que tenta viabilizar sua candidatura local a governador. Em São Luís, o presidente regional do partido, senador João Alberto (MA), cancelou a reunião, mesmo com 70% dos delegados presentes. "A convocação era para uma prévia, não para uma consulta, e eu não ia assumir responsabilidade por um ato questionável", disse o senador, ligado a Sarney e contra a candidatura própria. Vidigal, apesar de amigo de Sarney, está sendo cortejado para ser candidato pela oposição ao sarneyzismo, representada pelo governador José Reinaldo Tavares (PSB). A candidata de Sarney no Maranhão é sua filha, a senadora Roseana Sarney (PFL), com João Alberto compondo a chapa para o Senado. A candidatura de Vidigal ao governo só ocorrerá como uma solução de compromisso, com Roseana retirando sua postulação. O presidente do partido, deputado Michel Temer (SP) minimiza a importância da liminar ter sido mantida. "A consulta tem força política pelo quórum altíssimo nos 20 Estados em que está sendo realizada", afirmou. Além do Maranhão, não houve consulta no Amapá, Pará, Alagoas, Ceará e Bahia e Distrito Federal. Na Paraíba, o senador José Maranhão, presidente do PMDB local, reuniu os filiados e definiu o escolhido por aclamação. Nessa forma de consulta, deu Garotinho. Rigotto recorreu à Executiva Nacional que decidirá se haverá impugnação do resultado. Rigotto demonstrou menos otimismo que Temer sobre o valor político da consulta, se a liminar não for derrubada. "Esta é uma violência contra mim, que tenho que tomar uma posição até 31 de março, em razão do prazo da desincompatibilização. Esta liminar tumultuou o processo e desmobilizou militantes em diversos lugares do País", afirmou o gaúcho. Sem a pressão do prazo, Garotinho manteve-se confiante. "Com ou sem prévia eu vou para a convenção e eles vão ter que me aturar", disse ontem .Ele afirmou que estava "indignado" com os que classificou de "petistas chamados de governistas dentro do PMDB" que foram à Justiça para invalidar as prévias. Garotinho votou depois de encerrado o horário fixado, pouco mais dez minutos depois das 17h. Os fiscais do também pré-candidato o gaúcho Germano Rigotto reclamaram do atraso mas Garotinho rapidamente reagiu: "O Rigotto votou às quinze para as nove, antes da sessão começar". No palanque do showmício, que se prolongou por toda a tarde de domingo em frente à Câmara de Vereadores, na Cinelândia, no centro do Rio, Garotinho referiu-se especificamente ao senador José Sarney, que é aliado do governo e se opôs à realização das prévias. Disse que o senador era pior que Judas. Mas disse que vai lutar: "Não posso correr o risco de me basear somente na prévia e depois eles conseguem outra medida judicial contra a prévia", frisou. Reações duras contra os governistas também partem do lado de Rigotto, o presidente estadual do PMDB gaúcho, Pedro Simon, depois de classificar como "ridículo" o comportamento de Vidigal, anunciou por meio de assessores que irá pedir na terça-feira a expulsão de Sarney, Renan e do líder do partido no Senado, Ney Suassuna (PB), do PMDB.