Título: "Trauma não é suficiente para mudar o partido"
Autor: Raquel Landim e Cristiane Agostine
Fonte: Valor Econômico, 20/03/2006, Política, p. A6

A celeuma causada pelo traumático processo de escolha do governador Geraldo Alckmin não será suficiente para mudar os procedimentos internos do partido. É o que assegura o cientista político Celso Roma, pesquisador do Cebrap e estudioso do PSDB. "Não há nenhum fato ou movimentação interna que me faça crer que o PSDB sairá diferente desse processo de escolha do candidato a presidente. Isso não foi colocado em nenhum momento, nem pelos vitoriosos nem pelos derrotados", afirma nesta entrevista ao Valor. Para ele, não há fortes evidências, como a organização de um movimento pela reforma do estatuto ou a articulação da base alijada no processo, de que a estrutura interna de decisões tucanas seja desconcentrada. Roma afirma ainda que as razões por que o PSDB se esbaldou por meses em uma disputa interna para remontam à própria formação do partido. Traumatizados por não conseguirem lançar um candidato ao governo do estado de São Paulo em 1986, devido ao controle que o então vice-governador Orestes Quércia exercia sobre a máquina burocrática estadual do PMDB, os principais líderes paulistas que viriam a formar o PSDB dois anos depois -Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas- compuseram um partido com importantes quadros já conhecidos pelo eleitorado. Isso levou a um partido de difícil ascensão ao poder decisório. Segundo ele, nascia ali o "partido do consenso" que, dezessete anos depois se viu imerso em uma celeuma que parecia não terminar. Para, , novas celeumas podem ocorrer já que, mesmo com as feridas deixadas por esse processo, não há nenhum movimento interno que clame por mudanças no estatuto.

Valor: O processo de escolha do candidato a presidente pelo PSDB foi muito concentrado? Celso Roma: O processo obedeceu às normas do estatuto: cabe ao Conselho Político Nacional coordenar as decisões políticas relevantes. Nele, três membros conduziram o processo: Tasso Jereissati, representando o diretório nacional; Fernando Henrique Cardoso, representando os ex-ocupantes de cargos seletivos; e Aécio Neves, pelos governadores. Esse conselho exclui os presidentes dos diretórios regionais, o que diminui a participação da burocracia partidária. Alckmin, sabendo disso, usou a previsão estatutária de realização de prévias em caso de haver um ou mais pleiteantes para levar a disputa adiante.

Valor: Mas então, segundo o Estatuto, há um embate entre a realização de prévias e a decisão deste Conselho. Qual regra predomina? As prévias predominam, mas como a realização delas pode sinalizar que há uma divisão interna motivada por questões programáticas, há a tentativa de evitar sua realização. E, além disso, Serra não chegou a se apresentar oficialmente como pré-candidato. Só na última hora. Esse temor tucano às prévias é muito curioso porque a realização delas é algo muito comum a qualquer partido. O PSDB precisa aceitar que em um determinado procedimento pré-eleitoral podem haver vários filiados interessados em disputar a mesma vaga e que nem sempre haverá unanimidade em torno de um nome.

Valor: O senhor acha que o partido sai mais disposto a fazer prévias depois desse processo? O partido precisa estar mais disposto. O problema todo do PSDB é que nos próximos anos haverá uma renovação natural dos seus quadros, principalmente de um grupo importante que ajudou a fundar o partido. E para apresentar nomes à altura desses que deixarão o cenário político, precisa fortalecer sua estrutura interna, incentivar a juventude, formar politicamente os novos membros. Algo que não vem sendo feito ao longo dos últimos anos. É reconhecidamente um partido que dá pouca atenção à estrutura interna e que tende a concentrar o processo decisório nas mãos dos líderes e os filiados têm pouca ou nenhuma decisão.

Valor: Em razão de que? Em geral os partidos se organizam para disputar o poder. O PSDB, como já nasceu com quadros políticos formados, deu pouca atenção à organização partidária. Então qualquer tipo de conflito entre diretórios ou entre filiados em nome de uma determinada candidatura, como foi o caso, gera uma certa tensão. Eles não aprenderam a estabelecer regras claras de tomada de decisão interna. Porque como surgiu com quadros definidos e poucos anos depois elegeu um presidente da República, a organização interna mereceu menos atenção. Normalmente os partidos se organizam para chegar ao poder. O PSDB não. Chegou ao poder e desde então está tentando se organizar. Sua estrutura interna ainda tem pontos de fragilidade. Não conseguem fazer com que haja um processo decisório, que as prévias sejam realizadas normalmente de modo que as disputas sejam resolvidas. Não sabem que é normal não haver unanimidade em qualquer ponto e que o partido deve ter mecanismo interno de resolução desses conflitos para que cada disputa não vire uma celeuma.

Valor: Então essa indefinição tucana tem respaldo na formação e na estruturação do partido? Claro. É um partido que tem uma visao consensual da política. Não só na definição das estratégias eleitorais de partido, como no próprio governo também. O PSDB pensou, ainda sob o custo de críticas, em uma ampla aliança com o PFL que se transformou em em coalizão de governo. É um partido que sempre busca dividir o custo do governo. Sempre vai procurar tomar decisões consensuais, que evitem a qualquer custo o conflito. Tenho um levantamento com todos os filiados do PSDB que exercem cargos eletivos que mostra que eles detestam conflito na sociedade. São a favor que as posições políticas tenham base técnica. E muitas vezes isso é difícil de fazer. E juntando o receio do conflito com uma estrutura partidária frágil em que a tomada de decisões se concentra em uma cúpula, fica aquela coisa de que ninguém quer problema com ninguém.

Valor: Mas neste processo entre Serra e Alckmin fissuras foram revelas e algumas delas não podem permanecer até a eleição? Sim, mas o problema não é ter diversidade de opinião, é não ter unidade de ação na eleição. No PT , com a idéia do centralismo democrático, eles se matam lá dentro, cada um apresenta sua proposta, discute, mas na hora de tomar uma decisão nas arenas externas todo mundo vai votar junto, com uma ou outra resistência. E na eleição todo mundo segue a linha partidária.

Valor: O PSDB sairá diferente desse processo? No meu entender, não há mudanças na agenda do partido, não há mudanças na estrutura interna. Não há nenhum fato que aponte para esse caminho de mudança. Não há um movimento de reforma partidária, de que vá haver um congresso nacional para rever o estatuto. Isso não foi colocado em nenhum momento, nem pelos vitoriosos, os alckmistas, nem pelos derrotados, os serristas. E de fato o PSDB está tão acostumado a ter decisões unânimes, a não ter vida interna no partido, que quando ele se viu diante dessa possibilidade deu o maior problema. Por ter essa organização interna frágil, pouco estruturada, tende a se ter dificuldade no manejo do conflito interno. E ainda bem que esse conflito fica só no âmbito da carreira política de cada um, imagine se fosse do ponto de vista programático.

Valor: Alckmin ter ganho pode sinalizar essa mudança? Mais do ponto de vista programático do que de estrutura do partido. Ele faz parte da nova geração de tucanos. Representa a defesa de um conteúdo mais liberal da agenda do PSDB, mais preocupados com a eficiência da administração pública, de gerente do Estado, de controlar o déficit e privatizar estatais.

Valor: Mas por que eles rejeitaram um modelo de organização mais aberto? Porque em 1986 sofreram um trauma no diretório paulista em com o Orestes Quércia, que controlava toda a máquina estadual e impediu que quadros importantes como FHC e Covas tivessem acesso a possibilidade de candidatura ao governo. A partir disso, deram pouca atenção à máquina partidária na formação do PSDB. Rejeitaram um modelo de organização disciplinado. Não quiseram se engessar na burocracia partidária e preferiram dar autonomia ao comando.