Título: Temer recua para forçar convenção
Autor: Cristiano Romero, Maria Lúcia e Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2004, Política, p. A8

O presidente do PMDB, Michel Temer, neutralizou a ofensiva ontem dos governistas sobre a bancada do partido na Câmara dos Deputados e fortaleceu a tendência da convenção do partido marcada para o dia 12 de dezembro não ser adiada. A convenção irá decidir se o partido entrega ou não os cargos. No almoço de ontem com 64 dos 76 deputados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teve clima para repetir as ofertas de mais espaço que fez aos senadores. Terminou por dizer que respeitará a decisão que o PMDB tomar. "O jogo terminou em zero a zero. E a inércia trabalha a favor da convenção", afirmou o deputado Gastão Vieira (MA), governista e aliado do presidente do Senado, José Sarney (AP), também presente. "Os dois lados pouparam amplas exposições. O Temer deu ao seu pronunciamento uma linha que não tinha como Lula não seguir no mesmo sentido", afirmou o líder da bancada, José Borba (PR). O presidente do partido usou da palavra por meia hora e afirmou que a convenção irá deliberar sobre a participação ou não no governo, mas não sobre o comportamento no Congresso, que continuaria governista. Seria reeditado o cenário de 2003, quando o partido não tinha ministérios e votou a favor de 75 das 77 propostas do governo com votação nominal na Câmara. Neste sentido, disse Temer, não haveria razão se trabalhar contra a convenção - "Se o PMDB sair do governo, asseguraremos a governabilidade". O presidente então enveredou pela sutileza. Ao invés de acenar abertamente com mais cargos, disse que a participação do PMDB no governo poderia ser rediscutida. Afirmou que o partido pode ficar no ministério e preparar uma candidatura própria para 2006, embora uma coligação entre os dois partidos, segundo Lula, reeditaria o PMDB em sua fase áurea de prestígio eleitoral, no regime militar. "Michel Temer foi competente e Lula, elegante. A convenção continua posta", sintetizou o deputado Jader Barbalho (PA), governista. Em São Paulo, onde participou de um encontro de exportadores, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, disse que o PT não se importa em perder ministérios para aliados - "O PP apóia o governo desde o começo e é natural que participe do ministério. E o PMDB, após equacionar sua questão interna, também é natural, por seu peso político, social, eleitoral e parlamentar, que rediscuta sua participação no governo". Diante do resultado da reunião pemedebista com Lula, a ala governista começa a mudar sua estratégia, apostando não no adiamento da convenção, mas em seu esvaziamento. Uma possibilidade, usada com sucesso no governo Fernando Henrique, é o boicote, para tentar impedir que o encontro tenha quórum. Outra, a de retirar da pauta a deliberação sobre ficar ou não no governo. A terceira, a de conquistar os convencionais. Para qualquer uma das três hipóteses, os governistas imaginam que precisarão de gestos concretos do governo federal. Um deles seria pacificar o relacionamento entre os próprios governistas, criando uma situação que faça Sarney apoiar a candidatura do líder da bancada no Senado, Renan Calheiros (AL), à presidência da Casa. Se derrotados na convenção, os governistas poderão arguir o direito à divergência, assegurado no estatuto, para impedir a demissão dos ministros. A avaliação é que, se o ministro das Comunicações , Eunício Oliveira, anfitrião do almoço de ontem, e o ministro da Previdência Amir Lando decidirem ficar, Temer não teria força para expulsá-los da sigla. Caso este último cenário ocorra, a convenção terá sido inócua.