Título: Lula decide sozinho mudar o governo
Autor: Cristiano Romero, Maria Lúcia e Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2004, Política, p. A8

Planalto Mudanças no ministério mostram que o presidente abandonou o assembleísmo petista para decidir O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo definição de um interlocutor privilegiado e amigo, está vivendo provavelmente seu momento mais difícil no governo. Momento longo, esticado pelo período dos últimos 20, 30 dias, em que precisou tomar as rédeas do processo político e promover reformas amplas, para dar conseqüências aos alertas das urnas de 2004 a respeito dos riscos que está correndo o projeto de reeleição em 2006. Com o governo fragilizado por problemas administrativos, tendo pela frente a necessidade premente de mudanças na equipe para reconstituir sua base de apoio congressual, e seu partido, o PT, em crise interna, pressionando-o a promover mudanças onde não pretende fazer, Lula retraiu-se. Deixou de administrar as questões importantes em reuniões amplas, quase assembléias, mas passou a tomar sozinho as decisões mais fortes e executá-las também sozinho. "Lula faz política com a cabeça e o coração. Está magoado e de mal com a Marta (prefeita de São Paulo, Marta Suplicy), em cuja campanha atuou fortemente, inclusive liberando verbas e sendo processado judicialmente por causa dela, e não aceita o discurso que a prefeita fez na reunião do Diretório Nacional do PT culpando o governo dele por sua derrota nas eleições", exemplificou o amigo. Lula está magoado também com Raul Pont, que ligou a metralhadora contra o governo federal desde que perdeu as eleições para a Prefeitura de Porto Alegre. Ainda ontem fez críticas duras à administração do presidente. Está também o presidente irritado com o fato de o governo não ter "segredos", ou seja, com os vazamentos de informações sobre assuntos de que trata em pequenos grupos e sobre os quais ainda não há decisão. Sente-se só e resolveu atuar, neste período, também só. "Lula está ensimesmado", define um político a ele ligado. Assim tem agido, até agora, na reforma ministerial, nos planos para a continuidade das mudanças e na defesa do ministro Antonio Palocci e da política econômica em execução no governo federal, sob ataque de uma parte significativa do PT, inclusive abertamente, em duas ocasiões: na reunião do diretório no fim de semana e na reunião do presidente com ministros petistas no dia seguinte. Exemplos da nova forma de decidir, que surpreende os que estão a seu lado desde o primeiro dia, foram as trocas recentes de ministros. Ele chamou o vice-presidente José Alencar à Granja do Torto, convidou-o para ser o ministro da Defesa, ele aceitou, e só então mandou anunciar a demissão de José Viegas, junto com a designação do substituto. Sem falar com absolutamente ninguém, à exceção do nomeado. Na demissão do ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, conseguiu surpreender um número maior de pessoas. Havia pedido ao senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e ao deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que contivessem a inquietação verbal de Lessa, de forma que ele parasse de fazer críticas à política econômica. Os dois parlamentares disseram a Lula que Lessa prometera calar-se. Enquanto se imaginava, no próprio governo, que este era um salvo-conduto para a permanência de Lessa, Lula convidou Guido Mantega para a presidência do banco e mandou um avião da FAB ao Rio para buscar o economista, que amanheceu em seu gabinete. O ajudante de ordens deu a primeira notícia, para não haver sustos maiores: "O presidente vai pedir seu cargo". O anúncio da demissão foi feito junto com o anúncio do substituto. Lula só pediu a Mantega que fosse seguida a política do Lessa, com mais agilidade. E passou ao momento seguinte, de recomposição do ministério e de aviso aos que estão nos cargos sobre suas decisões já tomadas. Por exemplo: teve uma reunião de duas horas com José Dirceu, chefe da Casa Civil, para dizer a ele que ficará onde está, cuidando da gerência do governo, e Aldo Rebelo ficará onde está, cuidando da Coordenação Política. Lembrou a Dirceu que foi do próprio a idéia de dividir a Casa Civil, a escolha de ficar com o comando administrativo do governo e a aprovação ao nome do Aldo para gerir a outra parte. Portanto, que não se alimentassem mudanças que não viriam. Por sinal, nesta questão da articulação política, o presidente tem preferido o estilo Aldo ao estilo Dirceu, simplesmente porque agora é consultado sobre todos os passos das negociações políticas, antes que aconteçam. O presidente não vive mais apagando fatos consumados em incêndios. Na conversa com Dirceu, ele teve coragem para dizer-lhe que não estava gostando de ver declarações do ministro que representavam enfrentamento de suas orientações. Referia-se Lula ao fato de estar fazendo de tudo para manter o PMDB no governo e José Dirceu desdenhando da coragem do partido para afastar-se do poder. Com isso aumentaram os rumores sobre a insatisfação de Dirceu com seu papel no governo, o que abriria a possibilidade de ele ir para a presidência da Câmara. A aposta dos que acompanham, realmente surpresos, a atuação do novo Lula - um presidente mais parecido com o que ele era na administração do sindicato - é que alguns petistas que ainda estão ministros poderão deixar o governo nesta atual leva de mudanças.

Lula está magoado com Marta, por quem infrigiu a lei eleitoral e acabou sendo culpado por sua derrota

Estão condenados, por exemplo, Miguel Rossetto, Olívio Dutra, Patrus Ananias, Humberto Costa. Além de não ter feito a reforma agrária, Rossetto é da Democracia Socialista, corrente do Raul Pont, que atribuiu sua derrota eleitoral à política econômica federal do PT. Olívio Dutra porque o Ministério das Cidades não se implantou, os programas não aconteceram. Patrus, também pela inoperância, embora tenha ganho uma sobrevida com o desmanche recente do ministério e a saída de Ana Fonseca, a secretária executiva. Humberto Costa, apesar da vitória do PT na capital pernambucana, por inadequação administrativa à área absolutamente prioritária que lhe foi conferida. Mas não há decisão, ou se há o presidente a fechou, sobre o momento em que ele sairá. Antonio Palocci fica, a política econômica fica e será mantida tal como é hoje, porque é uma política de governo. A força do ministro é incontestável. Um dos exemplos a atestar isto é a queda de Carlos Lessa. Lula suportou dois anos de brigas. Quando Palocci lhe telefonou para dizer que assim estava difícil, pois além de enfrentar Luiz Fernando Furlan, Lessa estava agora elegendo Henrique Meirelles como bode expiatório, o presidente do BNDES foi defenestrado na semana seguinte. O presidente está aproveitando todos os auditórios possíveis para dar o recado sobre seu apoio à política econômica e a Palocci. Mas o mais qualificado deles, politicamente pelo menos, porque representa a vocalização da divisão interna do seu partido, foi a reunião que manteve com os ministros petistas do governo, na Granja do Torto, segunda-feira à noite. O presidente do partido, José Genoino, havia dito ao presidente que lhe faria um relato sobre a reunião do diretório, no fim de semana, em que a política econômica foi destruída. E faria um relato também para os ministros do partido. Lula, então, tomou a iniciativa de convidar a todos para o encontro com ele, de forma que houvesse uma só reunião. A política econômica dividiu os ministros como já dividira os dirigentes do partido, e ambos receberam de Lula a reafirmação de apoio e confiança em Palocci, e de manutenção do modelo econômico adotado. Não há abertura, com o presidente, nem para mudanças leves, que, mesmo não alterando o modelo, redirecionem as políticas. Por exemplo: na reunião do Diretório Nacional, considerada excelente pelos históricos militantes do partido, exatamente por ter possibilitado a discussão como se fazia antigamente, sem medo ou restrições, três intervenções se destacaram. A primeira, de Valter Pomar, 3º vice-presidente do PT. Ele lembrou que o PT entrou no governo sem oposição, alguns tucanos queriam apoiar Lula, outros pefelistas também estavam no governo, e o partido está saindo do segundo ano, depois de uma eleição municipal, com uma oposição fortalecida, os militares contra, a burguesia - que votara em 2000 com o PT - contra. Evitando dourar a derrota, o debate mostrou que ao perder as prefeituras de São Paulo, Porto Alegre, Belém e Goiânia, o PT perdeu a eleição municipal, e isto deveria servir de alerta, de aviso claro, tanto para o partido quanto para o governo Lula, de que este apoio pode faltar também em 2006. Outra intervenção considerada importante foi a do ministro da Educação, Tarso Genro, que desenvolveu para o diretório a tese de que é preciso acelerar a "transição de rumos", ter um modelo de economia voltado para o desenvolvimento nacional. Genro disse que o governo Lula não pode seguir sendo uma continuidade ortodoxa do governo Fernando Henrique, e defendeu uma "transição forçada". No sentido, segundo entenderam alguns dos que o ouviram, de "forçar a equipe econômica a ir para a transição". A terceira intervenção marcante foi a do deputado federal Paulo Delgado (MG). A tese que apresentou é que o PT perdeu onde não fez alianças e onde fez tantas alianças, incluindo seus antagônicos, que acabou por se desfigurar. Lembrou que permitir a determinadas figuras da política o acesso ao palanque do PT é "limpá-las", às custas de o partido sujar-se. José Dirceu também falou. Para não ter que assumir posições fortes abertamente, lembrou apenas: "Todos sabem o que eu penso". Defendeu Palocci, disse que a política econômica é do governo e não de um ministro. Criticou o superávit alto - o que repetiu na reunião de ministros com o presidente - e defendeu sua redução não para fazer um choque nos programas sociais, mas para conseguir mudanças na infra-estrutura - estradas, portos, silos, escolas técnicas - que possibilitarão o desenvolvimento. Houve dois extremos destoantes na reunião do Diretório Nacional: o ministro Luiz Dulci, titular da Secretaria Geral da Presidência, foi considerado um radical da "direita" ao defender que a função do PT é apoiar o governo Lula sem contestações e sem criar problemas. Já o deputado federal Ivan Valente (SP) recebeu a medalha do radical de "esquerda" petista ao propor que o partido tivesse autonomia com relação ao governo Lula e se juntasse aos movimentos sociais para pressionar pela mudança na economia. Por acordo, o diretório fez um pacto de resgatar o protagonismo do PT no governo que deve, sim, ser de coalizão, tendo o partido como seu principal pilar. Os ministros do PT, no seu momento, 24 horas depois do diretório, ouviram de Lula o apoio intransigente à política econômica. E ainda tiveram que ouvir que o presidente pode precisar dos cargos, para refazer o governo com os aliados e dar conseqüências aos alertas e avisos para 2006 contidos nos resultados eleitorais de 2004.