Título: GM do Brasil transforma engenharia de manufatura em área de negócios
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 23/03/2006, Empresas &, p. B1

Veículos Venda de projetos e de ferramentas já soma US$ 100 milhões em quatro anos

Enquanto a matriz da General Motors, nos Estados Unidos , tenta sair da crise, a filial brasileira continua em busca de formas de expandir negócios e ganhar dinheiro. Uma atividade que ganhou força é a venda de projetos de engenharia de manufatura e ferramentas para a produção de peças dos carros para as fábricas da GM de outros países. Em quatro anos, esses contratos já somaram US$ 100 milhões. Nos dois últimos anos, a GM do Brasil já vendeu 575 ferramentas e mais os projetos de 200 peças (como portas e pára-lamas) para veículos produzidos pela companhia na África do Sul, Venezuela, Colômbia, Estados Unidos e países europeus como Suécia, Alemanha e Inglaterra. O atual modelo europeu do Astra, por exemplo, carrega inteligência brasileira. Assim como os automóveis da Saab, o braço do grupo GM na Suécia. A oportunidade de expandir negócios em um momento em que a matriz enfrenta dificuldades financeiras fortalece a filial brasileira. À unidade cabe também comandar todos os passos dos trabalhos de engenharia de manufatura em cada uma das subsidiárias da região que abrange América Latina, Oriente Médio e África. É por isso que nos próximos dias, um engenheiro será deslocado do Brasil para o Egito para acompanhar a instalação de um novo sistema de pintura na General Motors de lá. O projeto também é de autoria da filial brasileira. A equipe de brasileiros realizou o projeto, comandou a contratação de fornecedores e o engenheiro que vai se mudar para o Egito passará cerca de dois anos naquele país para acompanhar o funcionamento do equipamento. A equipe brasileira será também responsável pelo suporte na montagem de uma nova picape grande que a GM começará a produzir na Venezuela. Mas, assim como a exportação de veículos, a venda externa do chamado ferramental também sofre com os efeitos da valorização do real. Nos últimos meses o ritmo das encomendas nesse setor caiu em mais de 50%, segundo o diretor de engenharia de manufatura da GM na América Latina, África do Sul e Oriente Médio, Adhemar Nicolini. "A ferramenta para a elaboração de uma peça de carro pode custar até US$ 200 mil", explica o executivo, preocupado com a concorrência dos asiáticos na exportação de ferramentas. Segundo Nicolini, o volume de encomendas pode imediatamente aumentar a partir de uma cotação de dólar mais favorável. Ao contrário dos contratos de exportação dos carros, que, uma vez perdidos, levam muito tempo para serem reconquistados. Na GM há quase 40 anos e com um currículo que carrega projetos clássicos como Opala e Chevette, Nicolini tem sob seu comando 550 profissionais, que cuidam da engenharia de manufatura em cada uma das fábricas espalhadas por essa região. A atual diversidade cultural na engenharia de manufatura na montadora chama a atenção do executivo. Ao mesmo tempo, ele assiste hoje a um movimento em que a matriz cada vez mais delega poderes à filial brasileira. "Qualquer projeto de produto executado pelas unidades da GM na região da LAMM (América Latina, África e Oriente Médio) tem que passar pela revisão do Brasil", explica Nicolini. Somente se o comando no Brasil endossar é que o projeto segue para a aprovação da matriz, nos Estados Unidos. E a equipe brasileira está ainda autorizada a fazer qualquer mudança. Essa competência é, em parte, um legado dos tempos em que os engenheiros automotivos brasileiros tinham de se virar para criar projetos em um mercado fechado. A atual estrutura da engenharia de manufatura da GM na região, diz Nicolini, começou a tomar corpo há três anos. Movimento semelhante ocorre na filial brasileira da Volkswagen. Há um ano a fábrica da montadora alemã do Irã começou a produzir o modelo Gol em uma linha de montagem que foi exportada pela subsidiária brasileira.