Título: Alta do desemprego em fevereiro divide opiniões
Autor: Denise Neumann
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2006, Brasil, p. A3

A taxa de desemprego medida pelo IBGE nas regiões metropolitanas de seis capitais brasileiras -Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre- atingiu 10,1%, voltando ao patamar de dois dígitos, após oito meses consecutivos na faixa de um dígito, O resultado surpreendeu os analistas e provocou avaliações divergentes. Para Marcelo de Ávila, economista e consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa "não veio boa", mas se explica mais pelo aumento da procura e pelo fechamento de 109 mil vagas informais no setor privado do que por algum problema na mais sério no mercado de trabalho. Apesar da alta, foi o melhor fevereiro deste o início da pesquisa no final de 2002. Em fevereiro de 2005 a taxa foi de 10,6%. "Foi apenas um ajuste das vagas temporárias geradas em dezembro", disse. Segundo Ávila, usando o estilo de análise praticado nos Estados Unidos, daria para dizer que o aumento da taxa foi positivo, provocado por maior procura por trabalho em decorrência do aquecimento da atividade econômica. A queda dos juros e o aumento de 1,1% nos rendimentos do trabalho sobre janeiro, constatado na mesma pesquisa, justificariam essa interpretação. Mas ele ressalva que a volatilidade do mercado no Brasil torna isso "arriscado" e exige uma observação mais longa. Para Cimar Azeredo, coordenador da pesquisa do IBGE, o resultado de fevereiro "acendeu um sinal de alerta" pela magnitude da alta em relação a janeiro (0,9 ponto percentual). Segundo Azeredo, historicamente, fevereiro tem maior procura por emprego, pressionando a taxa, mas o crescimento em relação a janeiro costuma ser de 0,3 a 0,4 ponto percentual. Ele ressaltou também que o resultado de Salvador, onde a taxa de desemprego caiu de 14,9% para 13,6%, está mascarado pelo Carnaval que teria reduzido a procura por emprego na capital baiana. O técnico do IBGE manifestou preocupação também com o fato de o nível de ocupação praticamente não aumentar nas regiões pesquisadas desde maio do ano passado. A taxa de ocupação, que é o percentual de pessoas ocupadas na população em idade ativa, ficou praticamente estável em fevereiro, caindo de 50,8% para 50,6%. Em dezembro do ano passado, era de 51,5% e em novembro, de 51,3%. Azeredo destacou também que o emprego na indústria caiu 2,7% e ele disse que a tendência para março é de aumento da taxa de desemprego. Mas ele frisou como positivo o fato de o emprego formal ter crescido 5,1% sobre fevereiro do ano passado e a renda ter aumentado 2,5% no mesmo período. "Os indicadores de qualidade do emprego são favoráveis", ressaltou. Os números do IBGE mostram que os empregos com carteira assinada no setor privado aumentaram 22,5 mil, enquanto os sem carteira caíram 109 mil. As pessoas economicamente ativas (empregadas ou procurando emprego) passaram de 22,04 milhões para 22,15 milhões, mas as ocupadas caíram de 20 milhões para 19,92 milhões. O número dos que não conseguiram encontrar emprego aumentou de 2,04 milhões para 2,32 milhões, tudo de janeiro para fevereiro. O economista Bráulio Borges, da LCA Consultores, deu pouca importância ao resultado do IBGE. Para ele, fevereiro é um mês sazonal e o fato de a taxa de desocupação ter sido menor do que a de fevereiro de 2005 indica que o mercado de trabalho está melhor neste ano.