Título: Para Iedi, país pode crescer bem acima do que o BC estima
Autor: Denise Neumann
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2006, Brasil, p. A3

O Banco Central não conhece a indústria brasileira, usa dados (como os de utilização da capacidade instalada) para os quais o próprio setor produtivo faz ressalvas e não imagina que a simples adoção de horas extras permitiria às fábricas instaladas em São Paulo elevar em 19% sua produção. Por viver tão longe do mundo real, a autoridade monetária criou e sustenta "mitos" como o de que a economia brasileira não pode crescer mais do que 3% a 3,5% ao ano sem gerar inflação. Esse diagnóstico foi apresentado, ontem, por economistas e empresários ligados ao Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O objetivo do encontro era discutir o Produto Interno Bruto (PIB) potencial da economia brasileira. Os empresários do Iedi estão convencidos de que este é um debate equivocado. Nenhum cálculo entre todas as metodologias utilizadas para estimar quanto o país pode crescer sem ressuscitar pressões inflacionárias é capaz de mensurar a flexibilidade de que a indústria dispõe, argumentaram os executivos. "A indústria pode adotar uma série de mecanismos, como hora-extra, terceirização, informatização de processos, etc, que elevam a produção e não dependem da maturação de ciclos de investimento", resumiu o empresário Pedro Passos, diretor da Natura. Para os empresários, é preciso inverter a lógica que permeia as discussões e decisões da diretoria do Banco Central e da própria equipe econômica. "É preciso ousar e deixar o país crescer", sustentou Paulo Francini, diretor do Departamento de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para o presidente do conselho do Iedi, Josué Gomes da Silva, a discussão do PIB potencial é como uma profecia que se auto-realiza. "Você acredita que o país não pode crescer mais, aumenta o juro, e aí o país realmente não cresce", ponderou. "É o aquecimento da demanda que leva ao aumento dos investimentos e permite, em contrapartida, que o potencial de crescimento do país aumente", argumentou Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Iedi. Com a atual política de juros altos, o BC estaria fazendo justamente o contrário. A transição de 2004 para 2005 é o espelho perfeito do equívoco do BC, avalia Gomes de Almeida. Em 2004, o PIB cresceu 4,9%, com uma alta expressiva de 10,9% no investimento e um percentual mais modesto, de 4,1%, no consumo das famílias. A restrição monetária - iniciada em setembro de 2004 com a primeira elevação da taxa Selic - reduziu o crescimento do PIB para apenas 2,3% no ano passado. "E atingiu mais fortemente o investimento do que o consumo", argumentou o diretor-executivo do Iedi. A evolução da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) recuou para 1,6% , enquanto o consumo das famílias ficou em 3,1%. De acordo com cálculos do Iedi, o resultado dessa política contracionista foi uma queda de 0,8% na produtividade total dos fatores. "O que o governo fez foi reduzir a capacidade de crescer no futuro, quando ele deveria, justamente, agir na direção oposta", acrescentou Gomes de Almeida. Os empresários do Iedi defendem que este e o próximo governo devem deixar a economia crescer. Eles não descartam a possibilidade de que essa opção venha acompanhada de algum crescimento inflacionário. "Não estamos defendendo leniência com a inflação", esclarece Josué Gomes da Silva. "Mas o horizonte de ajuste da inflação pode ser alongado, para 24 meses", sugeriu Gomes de Almeida, defendendo ajustes no atual sistema de metas de inflação. O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também assessor da presidência do BNDES, Nelson Barbosa, pondera que um país não chega ao crescimento sustentado com um passe de mágica. "O investimento demora um tempo para acontecer", explicou ele, que é um especialista em cálculos de PIB potencial. "Se tivermos pressões sobre a inflação ao longo deste período, elas serão temporárias, elas não se sustentarão", argumentou. Barbosa defende que o BC faça um acompanhamento mais minucioso dos indicadores econômicos. "Alan Greenspan, quando na direção do Fed, conferia o número de aspiradores de pó vendidos", ponderou. De acordo com pesquisa realizada pela Fiesp junto a mil empresas (no segundo trimestre de 2005), o setor poderia aumentar a produção em 57% com a adoção de horas extras, novos turnos de produção e pequenos investimentos. A pesquisa não faz, justamente, o que os empresários querem que o BC faça: analise os dados de forma mais desagregada. "Gargalos setoriais podem ser resolvidos com políticas específicas, como uma redução temporária de alíquotas de importação ou um incentivo localizado, mas a indústria tem flexibilidade para atender a um aumento de demanda", argumentou Francini. No debate, os empresários manifestaram claramente sua decepção com o atual governo. "Esperávamos que um governo formado por um líder sindical e um líder empresarial, ouvisse mais o setor produtivo", explicou o presidente do Conselho do Iedi, Josué Gomes da Silva, filho do vice-presidente José de Alencar. "Existe um fosso, parece que só há proximidade com o setor financeiro", argumentou Paulo Francini, da Fiesp. "Nós entendemos mais da economia real que a Febraban, e mais do que as autoridades econômicas", acrescentou o presidente do Conselho do Iedi.