Título: Pressão crescente por maior valorização do real
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2006, Opinião, p. A22
A valorização do real tende a ganhar novo fôlego com a constante melhoria das contas externas e a redução do risco-Brasil. As contas correntes, que encerraram com resultado mensal negativo em janeiro, tornaram-se novamente positivas no mês passado. Há dois fatores impulsionando um forte ingresso adicional de dólares no país - os investimentos em portfólio e as captações externas de empresas brasileiras. Atuando em sentido contrário, o ritmo de crescimento das importações tem-se mostrado com alguma persistência superior ao da elevação das exportações. Se o cenário revisto pelo Banco Central estiver correto, a pressão baixista do dólar é uma certeza. Mas a própria profundidade da queda pode deslanchar forças corretivas - o que é uma possibilidade, e não a favorita dos analistas. As projeções do Banco Central para a balança comercial, antes inferiores às do mercado, colocaram-se em linha com elas - subiram de US$ 36 bilhões para US$ 39 bilhões. A grande diferença entre o cenário anterior e o atual vislumbrado pelo BC é um aumento robusto dos investimentos de estrangeiros em ações e fundos de renda fixa, que saltariam de US$ 4 bilhões para US$ 10 bilhões. Os investimentos externos diretos devem, segundo o BC, aumentar de US$ 16 bilhões para US$ 18 bilhões. No total, a projeção indica um ingresso líquido de recursos US$ 11,3 bilhões maior - de US$ 10,3 bilhões para US$ 21,6 bilhões. Contribui para o resultado geral a perspectiva de que as captações externas e a renovação de dívidas por parte das empresas provavelmente serão superiores às do ano passado. Em fevereiro, elas somaram US$ 2,43 bilhões, equivalente a 687% do vencimento no período. Em março, até o dia 21, indicaram 215% de renovação. Nos últimos meses de 2005, a renovação atingia cerca de 70%, com a quitação antecipada ou não do restante. O BC estima uma rolagem de 100% para o ano. A valorização do real favorece as remessas de lucros e a quitação antecipada de dívida externa por empresas ou governo. Essa quitação, porém, deve arrefecer, à medida que a alta de juros no mundo desenvolvido diminua ou anule o diferencial de custo entre débito antigo e débito novo. Dessa forma, destas rubricas não virá um movimento importante a ponto de neutralizar o ingresso de capital de curto prazo. Esse movimento poderia vir da balança comercial, mas não é o que mostram as previsões. Boa parte do aumento das exportação já advém do aumento de preços e, se o cenário externo se mostrar benigno como até agora, haverá sustentação de mercado para novas altas. Uma avant-première do futuro já ocorreu em fevereiro - um superávit cambial expressivo de US$ 7,1 bilhões. Até a última terça-feira, o fluxo de março estava positivo em US$ 4,14 bilhões. Assim, a valorização cambial, que vinha sendo puxada pelos excelentes saldos comerciais, recebeu o reforço dos investimentos em portfólio, que ganharam a isenção do IR para o investidor externo. O capital de curto prazo voltará, caso a situação permaneça como está, a representar um papel importante na equação cambial, algo que pode elevar a volatilidade das cotações. Resta saber se a intensidade do fluxo para portfólio será forte como se prevê. A previsão do Tesouro é de algo em torno de US$ 5 bilhões líquidos, que seriam atraídos no ano para títulos altamente remuneradores de longo prazo, mas com liquidez imediata. Se as eleições não turvarem substancialmente o cenário econômico, é possível que as projeções do BC se concretizem. Se o BC estiver certo, a armadilha cambial se tornará ainda mais perigosa, pois será uma pule de dez apostar em desvalorizações do dólar. Com o agravante de o BC ter esgotado as armas leves à sua disposição para tentar equilibrar o jogo cambial. Com juros nas alturas, intervenções agressivas terão um custo maior para a dívida pública. Os BCs asiáticos podem empilhar enormes reservas internacionais, pois têm um custo de carregamento apenas um pouco inferior ou igual aos juros internos - o que está longe de ser o caso do Brasil. Com a isenção do IR, o efeito do diferencial da taxa de juros interna e externa, que já não era irrelevante, poderá se tornar significativo. Com isso fica claro que o descompasso de políticas do BC e do Tesouro terá como resultado uma valorização ainda maior do câmbio. Por outro lado, cresceu a pressão sobre a política monetária por cortes mais agressivos nos juros - de cuja necessidade o BC não está absolutamente convencido.