Título: Câmbio contém avanço do lucro
Autor: Carolina Mandl
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2006, Empresas &, p. B1
Balanços Números de 2005 mostram que companhias perderam o fôlego com real valorizado
Diversos setores da economia brasileira começam a perder o pique com a valorização do real. É o que mostra estudo feito pela consultoria Economática a pedido do Valor. As indústrias do setor químico, de papel e celulose e de veículos e peças registraram queda nos resultados líquidos em 2005. Outras, como as têxteis e as siderúrgicas, tiveram uma redução no lucro da atividade. Desde 1999, quando o câmbio passou a ser flutuante, as empresas brasileiras vinham num ritmo crescente de receitas e resultados tanto operacional quanto líquido. Só em 2002, com a instabilidade gerada pelas eleições, é que os números arrefeceram. Se tirada uma simples fotografia conjunta de todas as companhias com ações em bolsa em 2005 - quando o real se valorizou 13,4% - vê-se que à primeira vista elas também melhoraram. O lucro cresceu 26,2%, para R$ 40,9 bilhões, mas puxado pelo efeito que a valorização do real teve sobre o endividamento em moeda estrangeira. O resultado da atividade também subiu 5,5%, com R$ 69,2 bilhões. Elas ainda venderam 6,1% mais, com receita de R$ 347,5 bilhões. No entanto, uma análise mais detalhada dos números mostra que a maior responsável por esse desempenho foi uma empresa específica: a Companhia Vale do Rio Doce. Com o reajuste de preço de 71,5% do minério de ferro em 2005 mais um recorde de vendas, o lucro da mineradora cresceu 61,7%, para R$ 10,4 bilhões. Sem o lucro da mineradora - o maior já registrado por uma companhia latino-americana com ações em bolsa - o retrato das companhias brasileiras já não é tão espetacular. Apesar de o lucro continuar subindo, o resultado da atividade delas teria piorado em 2,76%, mesmo com uma receita de R$ 308,8 bilhões, que é 4,65% maior na comparação com 2004. "A situação é preocupante. As vendas maiores e o resultado financeiro são máscaras para um pior desempenho da atividade. As empresas estão perdendo margem", diz Fernando Exel, presidente da Economática. É o efeito do câmbio em um grupo de empresas que inclui muitas exportadoras. No setor de papel e celulose, quase todas as empresas tiveram queda em suas receitas. O mesmo aconteceu com o resultado da atividade. Nem mesmo o melhor resultado financeiro foi capaz de elevar o lucro líquido. A exceção ficou por conta da Aracruz, mas por motivos que fogem à operação. Nem a diminuição de 7,5% da receita líquida, para R$ 3,33 bilhões, nem a queda de 14,9% no lucro da atividade foram suficientes para prejudicar o resultado. Na última linha, ela exibiu crescimento de 2,9%, para R$ 1,16 bilhão. Isso porque a companhia lucrou com a valorização do real. As despesas financeiras diminuíram em mais de R$ 150 milhões. As têxteis também amargaram ao ter um câmbio desfavorável às exportações e uma maior concorrência com os chineses. O lucro da atividade delas caiu 22,4%, para R$ 237 milhões, e o lucro líquido sofreu uma queda menos acentuada por causa do resultado financeiro. "O faturamento encolheu basicamente por causa das exportações. Vendemos um volume menor e, além disso, recebemos menos", afirma Aguinaldo Diniz Filho, presidente da Cedro. A fabricante de denim viu seu faturamento encolher 10,5%, para R$ 435 milhões, apesar de o lucro crescer 6% por motivos não-operacionais. Para outras, apesar do crescimento das vendas, a menor rentabilidade das exportações derrubou o lucro. Foi o que aconteceu com a Gerdau. A produção de aços laminado e bruto cresceu, assim como a receita líquida, que subiu 2,57%, para R$ 21,24 bilhões. Mas o resultado da atividade caiu 19,5%, e o lucro, 7%, para R$ 2,78 bilhões. "As siderúrgicas sofreram tanto pela alta do preço do minério de ferro quanto pela queda do preço do aço no mercado internacional", diz Fábio Zagatti, analista de investimento da HSBC Corretora. Mas, de uma forma geral, o cenário de 2005 está longe de ser catastrófico. "Mesmo com as adversidades as empresas ainda cresceram em cima de uma base forte", explica Exel, da Economática. A questão é saber até quando a última linha do balanço irá resistir à constante valorização do real. "Em 2005, o câmbio trouxe muita pressão para as margens das companhias exportadoras. Mas, neste ano, tudo dependerá de como ficará o cenário internacional", diz Ricardo Cavaleiro, estrategista do Santander. Segundo ele, se a economia mundial continuar crescendo, a tendência é que o preço de muitas commodities mais do que compense o real mais forte.