Título: Lula busca alianças estaduais com PMDB
Autor: Raymundo Costa e Raquel Ulhôa
Fonte: Valor Econômico, 27/03/2006, Política, p. A5

Eleições Inibida pelo STF, chapa PT-PMDB pode se concretizar em alguns estados e firmar aproximação em eventual 2 mandato

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende insistir numa chapa com o PMDB, mas foi informado pelo senador José Sarney e pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que tanto a candidatura própria do partido quanto o apoio formal ao presidente foram inviabilizados com a decisão do Supremo Tribunal Federal que manteve a regra da verticalização nas eleições deste ano. Para obter o apoio do PMDB, Lula teria que levar o PT a desistir de lançar candidatos em vários Estados, um sacrifício para o qual o partido, com raras exceções, não demonstra disposição. E Lula tem concorrência: seu principal adversário, o PSDB, iniciou uma ofensiva para atrair os pemedebistas nos principais colégios eleitorais do país. Em São Paulo, por exemplo, os tucanos namoram com Orestes Quércia, cujo predomínio no PMDB os levou a sair do partido e fundar o PSDB. No Rio de Janeiro, conversa com o ex-governador Anthony Garotinho e pode apoiar a candidatura do senador Sérgio Cabral ao governo do Estado. Em Minas, o governador Aécio Neves costura um acordo que pode levar o ministro Saraiva Felipe (Saúde) a ser seu companheiro de chapa. Por mais que não vingue, Itamar Franco, candidato ao Senado, estará com Aécio. O mais provável é que o PMDB se divida entre as duas candidaturas, informalmente, como aconteceu em 2002, entre Lula e o tucano José Serra. "Não tem como fechar nem com Lula nem com o Geraldo Alckmin", diz Renan. Não sendo possível a coligação formal - o que daria o tempo de rádio e TV do PMDB a Lula -, o presidente tentará fazer palanques únicos no maior número de Estados possível. Onde não conseguir, terá um palanque próprio, para o qual serão convidados os candidatos dos demais partidos aliados. Hoje a formação de palanque único seria possível, sem maior dificuldade, no Amazonas, Paraíba, Alagoas, Goiás, Espírito Santo e Tocantins. Todos Estados pequenos em termos eleitorais, mas o presidente demonstra disposição para tentar dobrar o PT e tirar concessões para ampliar a presença do PMDB em seus palanques. Para furar o bloqueio em Minas, por exemplo, pensa em lançar o ministro Hélio Costa (Comunicações) para o governo, com o apoio do PT, que já tem candidato próprio, o ex-secretário de Direitos Humanos Nilmário Miranda. São Paulo é um outro exemplo acabado dessas dificuldades. Há um início de conversa com Orestes Quércia, que, nas pesquisas para o governo estadual, aparece mais bem situado que os candidatos petistas. Em troca do apoio de Quércia, o PT apoiaria o ex-governador para o Senado. Para isso, no entanto, seria necessário negar a legenda para o senador Eduardo Suplicy, candidato à reeleição, "uma tarefa fácil, fácil" - dizia, com ironia contida, no fim de semana, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). Berzoini admite que serão concessões difíceis de ser feitas, pois o PT tem a tradição da candidatura própria. "Colocados diante de cada situação, vamos analisar", diz o deputado, "mas sob a condição, é claro, de não desorganizar o partido". Berzoini defende a aliança com o PMDB: "É o partido de maior identidade do ponto de vista de um programa de governo de centro-esquerda", diz. "Se não fizermos uma aliança formal agora, é só no sentido tático (por causa da verticalização)", explica o presidente do PT. Lula insiste na ampliação da aliança, segundo argumenta, para não chegar a um segundo mandato sem maioria no Congresso, refém de legendas de ocasião. Mas o fato é que, a pouco mais de sete meses da eleição, o PT não dispõe de palanques fortes a oferecer para o presidente nos Estados. O partido é favorito em Sergipe, com o prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, e nos Estados que já governa, todos com pouca densidade eleitoral: Acre e Piauí. Em Mato Grosso do Sul o favorito, de acordo com as pesquisas, é o ex-prefeito André Pucinelli, do PMDB, cujo adversário deve ser o senador Delcídio Amaral, presidente da CPI dos Correios. Já o PMDB tem candidatos considerados competitivos em pelo menos 14 Estados. Sarney e Renan acreditam que 80% dos palanques do PMDB ficarão com Lula. Garotinho tem ótimo relacionamento com Fernando Henrique Cardoso. Ele já pegou um avião à noite e foi pra São Paulo só pra jantar com FHC. Falam sempre por telefone. Agora, está havendo aproximação com Alckmin. Quando o governador foi escolhido candidato, Garotinho ligou cumprimentando. Alckmin retribuiu quando Garotinho venceu a consulta do PMDB. Enquanto estreita os laços com os tucanos, Garotinho se afasta cada vez mais do governo. O PSDB prefere que Garotinho saia candidato a presidente, pois avalia que isso levará a eleição para o 2 turno. Mas, diante da possibilidade de ele não ser homologado na convenção, os tucanos estão de olho no seu espólio. Em Pernambuco, o governador Jarbas Vasconcelos deve apoiar o tucano Geraldo Alckmin. Ele governa a bordo de uma aliança bem sucedida entre PMDB, PFL e PSDB. Uma conversa entre Jarbas e Alckmin já está sendo articulada. A chapa em Pernambuco deve ter Mendonça Filho (PFL) para governador, Jarbas para senador e um nome do PSDB com candidato a vice. Já no Rio Grande do Sul, os partidos estão unidos contra o PT. Os tucanos acham que, sem a candidatura própria do PMDB, a sigla ficará com Alckmin. Os piores índices de intenção de voto de Lula estão na região Sul do país, daí a sua intenção de ter o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, como candidato a vice. Em Santa Catarina, Lula só teria chances se o PT apoiasse a reeleição do governador Luiz Henrique. Mas o PT tem candidato próprio: José Fritsch, o ministro da Pesca. O senador Leonel Pavan (PSDB) quer ser candidato, mas o partido não descarta uma aliança com Luiz Henrique. No Paraná, Requião é Lula, como já foi em 2002. No Pará, Almir Gabriel é candidato a governador e o PSDB pode apoiar Luiz Otávio (PMDB) para o Senado. No Distrito Federal, o governador Joaquim Roriz, que será candidato ao Senado, é Alckmin. Sua vice, Maria de Lourdes Abadia, é tucana. No Acre, o PMDB poderá apoiar o tucano Edílson Cadaxo. No Piaui, onde, a exemplo do Acre, governa o PT, o pemedebista Mão Santa não vai com Lula de jeito nenhum. Já em Alagoas o lulista Renan Calheiros apoiará o tucano Teotônio Vilela Filho que, por seu turno, apoiará Geraldo Alckmin.