Título: Esforço para concentrar
Autor: Flavia Lima
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2004, Eu & Investimento, p. D1

Com a conta-investimento, bancos oferecem vantagens que vão desde crédito extra à devolução da CPMF na tentativa de seduzir clientes

Desde 1º de outubro, quando a criação da conta-investimento isentou de CPMF as transferências feitas entre aplicações financeiras, os bancos têm se esforçado para convencer os clientes a concentrar aplicações. Por enquanto, o pagamento da contribuição é obrigatória para quem passa os recursos antigos para a nova conta (na primeira aplicação), mas a cobrança será extinta em 2006. Enquanto isso, os bancos tentam seduzir investidores com limites de crédito extra e devolução da CPMF. No Itaú, por exemplo, há fundos que devolvem a CPMF após 90 dias. Também existem linhas de crédito cujos limites e taxas variam de acordo com o volume aplicado. Moacyr Castanho, superintendente de fundos do banco, diz que o investidor pode optar por usar primeiro os recursos da conta-investimento na compra de ações, sem pagar a CPMF, assim como ter o dinheiro da venda dos papéis creditado diretamente na nova conta. "Tentamos desenhar o processo para que o cliente use a conta-investimento do mesmo modo que usa a conta corrente", diz. Vale lembrar que o dinheiro parado na nova conta não é remunerado. O Grupo Santander Banespa lançou o Multi Retorno, um fundo multimercado que assegura o capital inicial investido e a devolução da CPMF após um ano. O fundo está agora fechado para captação como forma de facilitar a devolução do principal. De acordo com Geraldo Lamonier, executivo do grupo, o banco planeja outras iniciativas nesse sentido para 2005. O consultor Fabio Colombo afirma, no entanto, que o investidor não deve se deixar seduzir por alguma dessas "facilidades", pois isso pode custar caro. Carteiras que devolvem a CPMF podem ter taxas de administração mais altas do que a média, lembra. "É preciso estar atento ao volume disponível para aplicação e a partir disso comparar bancos de categorias similares", diz. Marcelo D'Agosto, sócio do site Fortuna, alerta que o investidor não deve levar em conta apenas a devolução da CPMF na hora de trocar de fundo. Outros fatores também devem ser levados em consideração, como o rendimento e as taxas cobradas. Deixar um fundo que cobra de 2% ao ano pela administração por outro com taxa de 2,5% pode não ser vantajoso porque a diferença de 0,5 ponto não é compensada pelo 0,38% do tributo. "Mas, na decisão, o rendimento do fundo também deve pesar." D'Agosto diz ainda que, muitas vezes, os empréstimos concedidos a investidores escondem taxas pouco atrativas. Optar ou não pelo crédito depende, então, de uma conta bastante simples: se a taxa cobrada na linha de crédito for mais alta do que a rentabilidade do fundo, vale mais a pena, em um momento de emergência, sacar o dinheiro do fundo. Colombo vai ainda mais longe. "Recomendo sempre sacar do fundo para pagar dívidas", diz. Como exemplo, o consultor lembra que um bom fundo DI alcança rentabilidade líquida entre 0,9% e 1,1% ao mês, bastante inferior aos cerca de 3% cobrados nessas linhas de crédito. Ele não nega, no entanto, que esse tipo de empréstimo é um argumento de marketing poderoso e pode servir como um "conforto" para o aplicador. O BankBoston é outro que também conta com fundos que devolvem a CPMF. O Premium DI, por exemplo, reembolsa metade do valor em 90 dias e a outra metade em 180 dias. Mas a superintendente da área de investimentos, Sinara Figueiredo, reconhece que isso não tem um apelo significativo junto ao cliente do Boston. "Em dois anos ou mais não é isso que pesa", diz. Sinara reconhece que a criação da conta-investimento representa uma oportunidade de captar novos recursos e aposta no planejamento financeiro como o diferencial do banco. "Mapeamos tudo o que o cliente tem para poder fazer a melhor proposta", afirma. O que significa a montagem de uma carteira diversificada. Unibanco e ABN Amro Real lançaram linhas de crédito exclusivas para investidores, que cobrem até 90% do valor aplicado e podem ser usadas como alternativa ao saque. No Unibanco, a taxa mensal é de 2,9%, enquanto no Real ela cai para 2,4%. O consultor José Dutra Vieira Sobrinho lembra ser bastante comum para o investidor americano tomar empréstimo para aplicar em ações. "Mas por aqui, além de as taxas cobradas serem maiores, o dinheiro se restringe ao pagamento de dívidas", afirma. Os clientes da SulAmérica Investimentos não têm conta-investimento ligada à instituição - já que é uma gestora independente -, mas a possibilidade de migração sem a cobrança da CPMF é uma oportunidade para tentar atrair a clientela de outros bancos, em especial aqueles investidores que já têm a nova conta aberta. "Antes era comum aplicar no mesmo lugar que o cliente tinha a conta corrente, mas isso tende a mudar", diz o estrategista-chefe da SulAmérica Investimentos, Paulo de Sá Pereira. A movimentação de recursos entre aplicações da própria instituição, dizem os bancos, ainda é difícil de ser avaliada. Castanho lembra que é cedo para um balanço, pois os investidores só devem começar a sacar de fundos de renda fixa após 30 dias, quando termina o prazo do IOF de curto prazo. Para Lamonier, do Santander Banespa, uma competição totalmente sem barreiras entre os bancos só será possível a partir de 2006, quando cai o pedágio na primeira migração de recursos para a conta-investimento. "Está cada vez mais claro que tem diferença sim em se aplicar num banco grande ou num banco pequeno e o desastre do Banco Santos exemplifica bem isso", avalia o executivo. Sinara, do BankBoston, descarta a possibilidade de os bancos passarem a cobrar tarifa pela abertura da conta-investimento. "Ela serve exclusivamente para transição de recursos, se não tiver serviço atrelado a ela não tem como cobrar", diz o superintendente. Para Lamonier, a cobrança de tarifa sobre a conta-investimento seria um "contra-senso". Segundo o executivo, toda a política de descontos de tarifas está ligada ao volume investido pelo cliente. "A cobrança só faria sentido se a abertura da conta fosse obrigatória", diz.