Título: Tesouro volta a comprar dólares no mercado
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2004, Valor Finanças, p. C1

Câmbio Intenção é pagar US$ 2,99 bi em dívidas que vencem até junho

Aproveitando a queda na cotação do dólar , o Tesouro Nacional retomou sua estratégia de adquirir moeda estrangeira no mercado de câmbio para honrar pagamentos da dívida externa oficial. A intenção é pagar com esses recursos um total de US$ 2,998 bilhões da chamada dívida velha, entre juros e principal, que terão vencimento entre dezembro de 2004 e junho de 2005. O anúncio foi feito ontem pelo diretor de Política Econômica do Banco Central, Afonso Bevilaqua, que informou que o Tesouro já adquiriu um total de US$ 566 milhões em outubro. Bevilaqua sinalizou que as aquisições de dólares em mercado tiveram prosseguimento nas primeiras semanas de novembro, mas evitou antecipar os valores. Portanto, ainda não se sabe ao certo quanto dos US$ 2,998 bilhões o Tesouro comprou no mercado até agora, e quanto resta a ser adquirido - e até mesmo se resta algum volume de dólares a ser adquirido. Bevilaqua disse que os números só serão conhecidos em dezembro, quando forem divulgados os dados do balanço de pagamentos referentes a novembro. Como justificativa para a volta das aquisições de dólares, ele citou as boas perspectivas para as contas externas. "Todos os meses somos surpreendidos por números mais favoráveis no balanço de pagamentos", afirmou. Ele negou que as compras de dólares representem, via Tesouro, uma intervenção suja do BC no mercado de câmbio - com o objetivo de evitar maior valorização da moeda americana, que reduz a competitividade das exportações. "Quem disser isso estará completamente enganado", afirmou, argumentando que a medida tem o objetivo de fortalecer as reservas internacionais. Bevilaqua informou que, paralelamente à ação do Tesouro, o BC pretende manter seu programa de compra de dólares para reforçar as reservas. Mas ressaltou que eventuais compras de moeda serão levadas adiante de modo a não determinar o valor da cotação do dólar nem provocar volatilidade no mercado. Há algumas diferenças entre a atuação do Tesouro e do BC no câmbio. No caso das compras do Tesouro, a transparência é bem menor: o Banco do Brasil, como agente, vai a mercado e adquire moeda. Os participantes do mercado não sabem se o BB age em nome do Tesouro ou de outro cliente privado. Outra característica dessas operações é que os dólares não são integrados às reservas (embora evitem o gasto de reservas no pagamento de dívida externa). Normalmente, o Tesouro compra moeda do BB para entrega futura, na data em que vencem os compromissos no exterior. O Tesouro pode comprar dólares até seis meses antes do vencimento de suas dívidas. Desde dezembro de 2003 o Tesouro não fazia esse tipo de operação. Já as compras feitas pelo BC são conduzidas pela própria mesa de câmbio da instituição. Há maior transparência porque, no final do dia, a autoridade monetária solta um comunicado avisando que agiu. E o mercado tem alguma idéia dos volumes porque os dólares são integrados às reservas, cujas posições são divulgadas diariamente. Neste ano, o BC só comprou moeda em janeiro, num total de US$ 2,6 bilhões. O BC anunciou que as aquisições de dólares pelo Tesouro terão objetivo exclusivo de honrar pagamentos da divida externa velha (os chamados Bradies, emitidos na renegociação concluída em 1994, e pré-Bradies, ainda mais antigos) e do Clube de Paris. Em dezembro próximo, vencem um total de US$ 646 milhões desses compromissos, e US$ 2,352 bilhões devem ser pagos no primeiro semestre de 2005. No período em referência, também há compromissos da dívida nova (emitida a partir de 1994), que serão pagos com recursos oriundos das reservas. Apesar de Bevilaqua ter ligado as aquisições de dólares a perspectivas mais favoráveis para o balanço de pagamentos, tal fato não se confirma nas projeções atualizadas divulgadas ontem. O fluxo de entrada de dólares continua o mesmo. Na projeção divulgada em setembro, o BC já estimava uma "sobra" de US$ 10,4 bilhões no mercado em 2005. A diferença é que, antes, esses recursos seriam todos absorvidos pelos bancos - que aumentariam suas posições compradas. Agora, a projeção é que os bancos absorvam US$ 8,3 bilhões - e o restante fique com o Tesouro. Com a aquisição de dólares, o volume de reservas líquidas projetado para o final de 2005 foi elevado em cerca de US$ 3 bilhões - passou de US$ 18,415 bilhões para US$ 21,469 bilhões. Também há uma elevação, de US$ 702 milhões, nas reservas projetadas para o fim de 2004. Ontem, o BC divulgou o resultado das contas externas de outubro. Houve superávit em conta corrente de US$ 1,007 bilhão no mês, puxado pelas exportações. Para novembro, porém, a expectativa é que o superávit seja zero. Acompanhando o mercado, o BC reviu sua projeção para saldo em conta corrente no ano ano - aumentou de US$ 6,7 bilhões para US$ 9,2 bilhões.