Título: Ministro atribuiu queda do PIB a "excesso de zelo" do BC
Autor: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2006, Política, p. A6
O novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, viveu até agora três momentos distintos como integrante de primeira hora da equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante a campanha apresentou-se como um desenvolvimentista conciliador, reivindicando mudanças na política econômica para acelerar os investimentos, e ao mesmo tempo, acalmando o sistema financeiro quanto à manutenção de uma política fiscal responsável. Depois da vitória de Lula, Mantega chegou a ficar numa espécie de limbo, vendo os principais postos da área econômica serem ocupados pelo petista Antonio Palocci e sua equipe, em grande parte formada por economistas ligados ao governo anterior. Ele foi nomeado para a pasta do Planejamento no arremate final da costura do novo ministério, onde fez papel de coadjuvante na política ditada pela Fazenda. Manteve um comportamento discreto, reduzindo praticamente sua atuação aos cuidados com o orçamento, enquanto Palocci cristalizava a opção pela ortodoxia que imperava no segundo governo de FHC. A saída do ruidoso mas também desenvolvimentista Carlos Lessa do comando do BNDES abriu espaço para sua nomeação para o posto, criando a impressão de que o governo estava fechando a única janela de oposição interna à política monetária rígida tocada pelo Banco Central. No entanto, não foi isto que aconteceu. À frente do BNDES, Mantega retomou seu antigo perfil e foi abraçando algumas das bandeiras mais caras a Lessa, como a redução dos juros básicos e da TJLP, taxa de juro de longo prazo que corrige os empréstimos do banco. Brigou também pela capitalização do banco, enfrentando o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, e defendeu o banco contra os críticos do crédito direcionado. Mantega mostrou-se mais crítico em relação à política da Fazenda quando foi divulgado o resultado do PIB do terceiro trimestre de 2005, que registrou uma queda de 1,2% em relação ao trimestre anterior ( taxa revista pelo IBGE para menos 0,9%). Na época, radicalizou a ponto de debater publicamente com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre o que considerava excessos da política monetária. O então presidente do BNDES atribuiu a queda do PIB ao "excesso de zelo do Banco Central". Pela sua postura dos últimos meses, economistas do PT, velhos conhecidos de Mantega que com ele trabalharam nas campanhas presidenciais de Lula de 1989, 1998 e 2002, acreditam que ele vá tentar acelerar a queda da Selic nos próximos meses e também reduzir mais fortemente a TJLP, como forma de estimular os investimentos e levar o país a crescer pelo menos 4% este ano, nesse novo ciclo de crescimento, como vem pregando. É previsto que atue para evitar uma sobrevalorização maior do câmbio, sendo homem mais ligado à produção que aos mercados. Não se deve esperar também de Mantega que aceite proposta de aumento do superávit fiscal para percentuais acima ou abaixo dos 4,25% do PIB. É importante lembrar que o novo ministro foi contra a proposta do déficit nominal zero feita pelo deputado federal Delfim Netto (PMDB-SP). Amigo pessoal de Lula, travou com o presidente um conhecimento mais profundo no ano de 1989, durante a gestão da prefeita Luiza Erundina, em São Paulo, quando foi diretor de orçamento da prefeitura e colocou em prática pela primeira vez a idéia de orçamento participativo, que se transformou numa das marcas das administrações petistas. Naquele ano, foi convidado por Lula para participar da elaboração do programa de governo do então candidato à presidência. Em 1983, Lula o chamou para integrar o Instituto da Cidadania. A partir daí, se integrou diretamente na elaboração das idéias econômicas do PT e nas campanhas presidenciais de Lula. Guido Mantega nasceu em Gênova, Itália, em abril de 1949. Veio para o Brasil aos três anos, e nos planos de seus pais, seria engenheiro e administraria a indústria da família, os Móveis Mantega. Seu destino foi diferente. Formado em economia pela Faculdade de Economia e Administração da USP, Mantega foi professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas. Tornou-se doutor em Sociologia (USP) e abraçou a carreira acadêmica, através da qual se sobressaiu como membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entidade que lutou contra a ditadura militar, como integrante do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), uma organização não-governamental que reunia boa parte da intelectualidade paulista nos anos de chumbo, o que acabou levando-o a entrar na política e consequentemente, no PT, de onde não mais saiu.