Título: Mantega diz que crescimento pode chegar a 4,5% em 2006
Autor: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2006, Política, p. A6

O novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, manterá os fundamentos da política econômica calcados no tripé - taxa de câmbio flutuante, regime de metas para a inflação e superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto; respeitará a autonomia do Banco Central na administração da taxa de juros básica (Selic) e considera que sua missão, agora, é uma só: ajudar a promover o crescimento econômico, que neste ano, segundo ele, poderá ser este ano de 4% a 4,5% , embora as expectativas do relatório de mercado, elaborado pelo BC, sejam de 3,5% de crescimento. Ruy Baron/Valor Mantega: "O presidente é o fiador dessa política econômica e ela não deve mudar porque é a mais bem sucedida dos últimos 15 anos" Ele não se comprometeu, porém, durante entrevista que concedeu ontem à noite, a manter a equipe técnica do ministério da Fazenda nem a diretoria do Banco Central. "É prematuro dizer (se vai manter todos). Vou tomar posse, analisar os quadros. Acho os quadros do ministério eficientes, mas não descarto a possibilidade de fazer algumas mudanças". O secretário executivo do ministério, Murilo Portugal, ontem mesmo pediu demissão "em caráter irrevogável". O secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, também deixa o cargo para ocupar a a vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no próximo mês. Mantega e Levy nunca esconderam as enormes diferenças que têm com relação à questão fiscal. Em documento recente, Levy alertou para o peso do salário mínimo nos gastos públicos, sobretudo com benefícios sociais. Mantega discorda dessa avaliação, indica que o aumento do gasto veio do esqueleto que o governo anterior deixou para a Previdência Social pagar e argumenta que gastos sociais representam investimento. Do Banco Central não houve qualquer manifestação pública. Com a saída de Mantega do BNDES, o vice-presidente, Demian Fiocca, assumirá a presidência do banco. Maria Fernanda Ramos Coelho, funcionária de carreira da Caixa Econômica Federal, substituirá Jorge Mattoso, que ontem também pediu demissão. Ela foi superintendente Nacional de Desenvolvimento e Estratégia Empresarial e trabalha há 22 anos na CEF. "A política econômica não mudará. Ela não é do ministro Palocci, da ministra Dilma Rousseff nem do ministro Paulo Bernardo. O presidente Lula é o fiador dessa política e ela não deve mudar porque é a mais bem sucedida política econômica dos últimos quinze anos e que está nos levando a um novo ciclo de desenvolvimento. A inflação está sob controle, reinam a responsabilidade fiscal e social e a vulnerabilidade externa está em seu menor patamar. Estamos pré-pagando dívida externa", assegurou o novo ministro, que falou à imprensa depois de longa conversa com o presidente da República. O primeiro grande teste de Mantega como o novo comandante da política econômica do governo será na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), marcada para amanhã. Como presidente do BNDES, Mantega defendeu a redução mais acelerada da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) como instrumento para incentivar novos investimentos no país. A expectativa é de que ela caia, já na reunião do CMN, dos atuais 9% ao ano para 8,25% ao ano. Essa, porém, não é uma questão trivial e o ministro esbarrará na argumentação do BC e do próprio Tesouro Nacional, o primeiro em relação ao impacto que uma medida dessa natureza teria sobre a demanda agregada e a inflação. Para o tesouro, o problema é fiscal, na medida em que avalia que há um subsídio implícito nessa taxa de longo prazo. Suas críticas, embora pontuais, vão além da renitência do CMN em manter elevada a TJLP. Mantega advoga a realização de grandes investimentos, como o complexo hidrelétrico do Rio Madeira, trabalhou durante toda sua gestão no BNDES para capitalizar a instituição, de forma que ela possa emprestar mais a setores específicos, como petroquímica e siderurgia, e, alinhado à ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, opôs-se frontalmente, no ano passado, à tese de um endurecimento fiscal. Isso ocorreu quando Palocci tentou convencer Lula a elevar formalmente a meta de superávit primário de 4,25% para 5% do PIB em 2005. A meta foi mantida nos 4,25% do PIB, mas o ministério da Fazenda acabou realizando mais, 4,84% do PIB. Amigo de Lula desde o início dos anos 90, Mantega tem estreito relacionamento com o presidente, com quem encontra-se semanalmente, todas as quartas-feiras, no palácio do Planalto. Como ministro do Planejamento, teve estrito respeito à responsabilidade fiscal. Mas é visto pelo mercado, agora, como um ensaio do que pode vir a ser um segundo eventual mandato de Lula. O convite para substituir Palocci foi feito ontem à tarde e, segundo explicou em entrevista coletiva no Palácio do Planalto, " o presidente Lula me deu a incumbência de dar continuidade ao trabalho (de Palocci)". Perguntado se os juros básicos, agora, tomariam uma trajetória mais rápida de queda, ele respondeu que estava assumindo o ministério da Fazenda e não a presidência do Banco Central, e lembrou que taxa Selic é da competência do Comitê de Política Monetária (Copom), numa manifestação de que respeitará a autonomia do BC nessa questão. Mas lembrou que como membro do Conselho Monetário Nacional, poderá influir na discussão das metas de inflação dos próximos anos e isso tem ligação direta com o patamar de taxa de juros.(Colaborou Paulo de Tarso Lyra)