Título: Fabricantes de cachaça buscam o exterior para aumentar as vendas
Autor: Paulo Emílio
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2006, Empresas &, p. B4
A rentabilidade oferecida pelo mercado internacional desanima muitos exportadores brasileiros, mas este não é o caso de grandes fabricantes de um dos produtos mais típicos do País: a aguardente. Pitú e Ypióca, tradicionais produtoras de cachaça, estão com planos agressivos para o mercado externo, onde há grandes chances de expansão já que as vendas domésticas estão estabilizadas. Em 2005 foram exportados 10,8 milhões de litros da bebida, menos de 1% da produção nacional, que foi de 1,5 bilhão de litros, segundo o Programa de Desenvolvimento da Cachaça. O seu presidente Everardo Telles, que também é vice-presidente da Associação Brasileira de Bebidas, diz que as exportações de cachaça devem crescer 25% em relação a 2005. O país está abrindo novos mercados, como a Lituânia, e ampliando vendas a importadores tradicionais, como Alemanha e Portugal. Telles observa que toda a aguardente produzida no Brasil é consumida. "Não existe folga. O crescimento médio da produção, que se manteve estável entre 2002 e 2003 em 1,3 bilhão de litros, vem crescendo cerca de 10% ao ano desde 2004. Já as exportações crescem quase 25% ao ano. A opção das empresas internacionais, mesmo com o dólar nos patamares atuais, está na estabilidade do mercado internacional e também na rentabilidade quando em comparação com o mercado interno", justifica. O preço médio da caixa com 12 litros da bebida engarrafada tipo "standard" no mercado interno equivale a cerca de US$ 14. Quando vendida no exterior este valor sobe para algo entre US$ 18 e US$ 20. No caso da aguardente envelhecida este preço pode ser muito superior. Existem casos de marcas que chegam a custar mais de US$ 350,00. "Em 2005 exportamos cerca de 2,5 milhões de litros. Neste ano a meta é ampliar em 10%, mas não ficarei surpresa caso o crescimento das vendas internacionais chegue a 20% até o final de 2006", diz a diretora de Produto e Relações Externas da Pitú, Maria das Vitórias Carneiro Cavalcanti. A Pitú é uma das maiores exportadoras nacionais da bebida. A executiva conta que no ano passado a empresa fechou contratos com nove países, o que resultou em um crescimento de 30% nos volumes destinados à exportação. Apesar desses novos mercados, a Alemanha responde por 80% de tudo que empresa pernambucana vende no exterior. Para alcançar novos consumidores a Pitú está adaptando o produto. Para o mercado chinês, desenvolveu caixas com seis litros - no lugar dos 12 litros tradicionais - de maneira que as mulheres possam transportar a bebida mais facilmente. Na Austrália, a Pitú pena para encontrar garrafas de 700 mililitros com travas que evitem vazamentos durante o transporte. "Temos a embalagem padronizada de 1 litro. Agora estamos buscando uma nova embalagem no mercado ou então temos que convencer os importadores a adquirir o produto na forma tradicional de 1 litro", observa. Atualmente a aguardente pernambucana está presente em 25 países e em 42 lojas "duty free". As exportações representam 3% do faturamento. Na cearense Ypióca, as expectativas em torno do mercado internacional para 2006 são promissoras. Sua diretora comercial, Aline Telles Chaves, diz que a Ypióca produz cerca de 80 milhões de litros anuais de aguardente envelhecida, tipo premium. Desse total, 5% vão para a exportação. "Estamos projetando aumento de 40% nas nossas exportações neste ano. O mercado externo tem um potencial maior que o interno, onde o consumo é estável há vários anos. Vamos crescer neste horizonte", afirma Aline. A Ypióca é pioneira no País na exportação de aguardente. A primeira remessa foi feita em 1968 e teve a Alemanha como destino. Para alcançar a meta de crescimento, parte das esperanças da Ypióca estão depositadas na Copa do Mundo. A idéia é veicular a imagem da bebida à alegria do futebol, sem esquecer a origem brasileira da bebida. Em ano campeonato mundial, a Ypióca também pretende crescer no mercado interno. Com 160 anos de atividades e incluída entre as quatro maiores empresas do segmento em todo o País, a empresa pretende alavancar as vendas no mercado nacional em 10% até o final do exercício. "Vamos intensificar as ações de mídia. Já iniciamos os trabalhos participando do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e temos outros projetos", afirma. A Ypióca destina 5% de seu faturamento para ações de mídia e marketing. A diretora comercial diz que parte do crescimento da marca no mercado interno deverá ocorrer no segmento de embalagens descartáveis e em bebidas prontas para beber. Estes segmentos representam 15% das vendas e devem chegar a 20% até o final do ano. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), as exportações nacionais de aguardente vêm crescendo. Em 2003 o volume foi de apenas 8,2 milhões de litros. No ano seguinte foram exportados 10,2 milhões de litros e em 2005 10,8 milhões. Os valores no período passaram de pouco mais de US$ 9 milhões, para US$ 11 milhões, em 2004, e US$ 12,4 milhões no exercício passado. Atualmente 140 empresas nacionais possuem perfil exportador. Em todo o País existem cerca de 5 mil marcas de cachaça. A estimativa é que o segmento movimente mais de US$ 600 milhões anuais. Atualmente pouco mais de 140 empresas nacionais comercializam sua produção no mercado internacional.