Título: FIDC pode captar R$ 15 bi este ano
Autor: Altamiro Silva Júnior
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2006, Finanças, p. C1

Taxas em queda e forte demanda estão levando cada vez mais empresas a criarem fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC, os fundos de recebíveis). Em pouco mais de dois meses, as carteiras conseguiram captar R$ 2 bilhões, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Apenas nos últimos dias, três novos fundos foram criados, levantando R$ 460 milhões. As projeções do mercado indicam que os FIDCs devem levantaram entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões este ano, superando o recorde do ano passado, quando captaram R$ 8 bilhões. Ontem, em meio à espera do pedido de demissão de Antonio Palocci e o anúncio de seu substituto, executivos estavam reunidos para definir as condições de oferta do FIDC do Grupo Brasil, holding que controla cinco empresas do setor metalúrgico, entre elas a Alujet, que fabrica rodas de liga leve para automóveis. As cinco companhias farão um único fundo, de R$ 85 milhões. A remuneração proposta é de 110% da variação do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI). Nas últimas operações, segundo as empresas que estruturam FIDCs e fundos de pensão, que aplicam nestes papéis, a demanda por estas carteiras tem superado a oferta. "O investidor descobriu os fundos de recebíveis", afirma Francisco Turra, da Integral Trust, empresa que já estruturou mais de 20 fundos. "O mercado está superaquecido", completa. Prova disso foi o fundo da Quero Quero, rede varejista gaúcha, concluído em fevereiro. O fundo captou R$ 60 milhões, mas poderia ter captado muito mais, pois havia demanda, afirma o executivo da Integral. Para Turra, com os investidores conhecendo melhor os FIDCs, a tendência é que o mercado se sofistique cada vez mais, oferecendo fundos mais criativos. "O fundo de recebível é um instrumento mais flexível e permite operações diferenciadas", diz. Outro diferencial são as taxas menores para as empresas. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), por exemplo, captou R$ 250 milhões, pagando apenas a variação do CDI mais 0,7%. No ano passado, a empresa captou debêntures pagando CDI mais 1,5%. A explicação para taxas mais baixas é que o FIDC permite a separação do risco do fundo do risco da empresa. Segundo executivos que estruturam estas carteiras, se elas forem bem montadas e blindadas, o rating do fundo não raro será maior que o da empresa que origina os recebíveis. Com isso, a taxa cai. Já em uma emissão de debêntures, o papel tem o risco da empresa, e sua classificação é a mesma da companhia emissora. Outro fundo recém-laçado no mercado foi o da Tigre, fabricante de tubos e conexões, que levantou R$ 127,5 milhões. A carteira foi aprovada pela CVM na semana passada. Os recebíveis foram duplicatas da empresa. A remuneração ficou em 105% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI). No mercado, os executivos estão otimistas. Só na Integral, há cerca de seis fundos sendo estruturados, que devem levantar cerca de R$ 2 bilhões. Segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), no ano passado, os FIDCs foram responsáveis por 12% das captações feitas no mercado de capitais brasileiro. Há pouco mais de três anos, a participação era zero.